Ciro, o mau caráter: Haddad, o bom mocismo

Dois políticos emergiram como temas nesta semana que passou, o primeiro como sempre com sua “metralhadora giratória” como disse Luis Nassif: o segundo fazendo críticas à presidenta Dilma, dizendo lenha para o fogueira inimiga, ao dizer que ela colaborou para que o impeachment se tornasse “necessário” para por a economia nos rumos certos…

Ciro Gomes é um político paradoxal: quer o apoio da esquerda mas não consegue guardar para si seus ranços dos tempos da Arena, dos tempos dos coronéis, dos tempos em que crítica alguma poderia ser feita ao “chefe”. Ele se tem por “chefe”… e a cada vez que abre sua boca, sempre estará pronto para criticar Lula, para acusá-lo, para condená-lo. Ou para atribuir ao PT a culpa por não ter conseguido ir para o segundo turno. No fundo o raciocínio de Ciro é: eu sou confiável, a esquerda ME DEVE apoio. Eu preciso mostrar que sou confiável para o outro lado para me tornar uma unanimidade nacional. Por isso bate pesado na esquerda, desta a vez contra os jornalistas Paulo Moreira Leite e Kiko Nogueira, sem qualquer base em fato reais. Simplesmente acusa. Que quer? Tornar-se simpático à direita.

Fernando Haddad é o bom moço da USP. Foi candidato à Presidência num momento de crise enorme. Foi ao segundo turno, tornou-se uma liderança importante no campo da esquerda. Tem um passado como ministro da educação de Lula e de Dilma, e como prefeito de São Paulo. No ministério, para o ensino básico, manteve a política neoliberal das avaliações de larga escala, criou mais uma prova aos 8 anos de idade, a prova Brasil ou provinha que recebeu aplausos de Paulo Renato, seu antecessor no ministério da educação. Lembro que à época Paulo Renato se ofereceu para ajudar a implementar a “provinha Brasil”. No ensino superior, foi levado por Lula a uma política de expansão. Não se sabe se contra sua vontade ou não. Mas importa que a realizou. Aumentou o número de universidades federais, abriu novas vagas e saímos durante sua gestão do patamar vergonhoso de sermos o país da América Latina a termos o menor percentual de universitários na faixa etária dos 18 aos 25 anos! Na Prefeitura, conduziu políticas públicas elogiáveis, ainda que não tenha negociado adequadamente, em 2013, o aumento das passagens de ônibus, por não ter conversado com os usuários, somente com o setor empresarial do negócio.

Pois veio ele com um artigo na Folha de S. Paulo criticar a política econômica do governo Dilma. Seria mera falta de sensibilidade com o “timing” político? Talvez não. Lembremos que levado ao segundo turno no ano passado, Haddad perdeu um longo tempo tentando o apoio da direita, particularmente do PSDB – que suponho ele imagina como sendo de centro-esquerda!

Dilma teve um programa econômico muito claro: negociou o programa com a CUT, com a FIESP e com a CNI: trata-se de expandir a indústria nacional para que ela pudesse fazer frente à demanda provocada pela saída de 40 milhões de pessoas da miséria. Aumentar este contingente sem fortalecer a indústria nacional teria dois problemas: uma demanda que elevaria a inflação que se tornaria incontrolável e uma pressão externa para abertura do mercado brasileiro para que empresas do exterior atendessem a esta demanda, desequilibrando a balança de pagamentos.

Para conseguir isso, combinou com os dois segmentos a queda dos juros para com isso financiar, a longo prazo e juros baixos, a indústria nacional. Acontece que não havia mais industrialistas no país, mas somente rentistas! A queda da taxa Selic prejudicou os rentistas e a FIESP comprou o pato amarelo… E deu no que deu. Ou alguém acredita que Skaf é industrialista?

Haddad, ao dar de bandeja sua crítica à política de Dilma estava visando o quê? Do meu ponto de vista a mesma coisa que Ciro: a esquerda, como supõe erroneamente Ciro, já está com ele – e não está. Por isso pode coicear à vontade a esquerda para conquistar a centro-direita e no caso dele, a direita mesmo. Haddad considera que a esquerda, o PT particularmente, já estão com ele como estiveram nas eleições de 2018. Então também ele pode dar alguns coices na injustiçada presidenta Dilma, para angariar prestígio junto a centro-direita e, talvez, oxalá, da direita!

Ciro é um mau caráter; o bom mocismo de Haddad parece aquele do aluno da USP que precisa da aprovação do velho professor, dos catedráticos, dos que têm renome (no caso, de FHC, que ele tanto paquera). Acontece que dando coices à esquerda, ele será levado ao ostracismo porque foi a esquerda que o levou à liderança política que hoje exerce!

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.