Os ratos amestrados fazem acrobacias ao amanhecer

Os ratos amestrados fazem acrobacias ao amanhecer

Uma cacetada! Sinto-me como se tivesse levado uma surra de cotidiano na leitura deste conjunto de textos de Políbio Alves onde nas histórias e reflexões se misturam memórias irreprimíveis de um poeta e escritor que conheceu a tortura porque participou da história e esteve presente ao assassinato de Edson Luís no Calabouço, onde dava suas aulas. Foi dos que não permitiu que a repressão escondesse o corpo e participou da caminhada que o levou à Assembleia Legislativa e depois à Candelária.

Este excelente livro, merecedor do prêmio que o distinguiu (Prêmio Literário Augusto dos Anjos), compõem-se das miudezas do cotidiano aliadas às reflexões sobre o próprio ofício da escrita e dos desvãos das palavras. Sua técnica provém das artes plásticas: colagem de fragmentos. Fragmentos do cotidiano.

Percorrem as páginas esta obsessão criativa, produto da observação da “solidão coletiva. Impenetrável”. E no entanto esta solidão jorra nos flashes das histórias que aqui se contam. Sua escritura é própria, original, misturada, gêneros intercambiáveis com a constante da referência ao social, ao mundo dos homens e das mulheres das margens, nas quais vive também o escritor, o narrador que se assume em primeira pessoa e que reflete sobre o gesto da escrita que o move e o comove, pois “o ato da escritura viabiliza a saga das palavras”.

Os fragmentos na colagem acabam por produzir uma imagem do todo em que vivemos como partes sem jamais conseguirmos a totalidade perdida da arte do passado. Justapostos em “colagem”.

Em As moças do sobrado, fala-se das mulheres que “toleram a difícil vida fácil de cada dia”, cuja existência depende do aparecimento do desconhecido que chega movido pelo furor do desejo para encontrar a “Despudorada. Com um beijo na boca. De alguém desconhecido. Aí está. Mas afetuosíssimo, às vezes, sim. Outras não”. Eis como descreve o sobrado:

O patamar, no momento, habituado à penumbra, se alternava pelos discretos néons, pisca-piscas. É hálito memorial de prazer. O que é o caso. Isso. Por toda a parte. Pressentido nos corpos se grudando de libertinagens nos banheiros. É assim que se perpetua essa noite sedutora a rebuscar em cada um dos distintos cômodos a epifania de Dante.

O solilóquio de Meteorango Dia, escrito no correr das horas anunciadas como fôlegos de uma reflexão em que se juntam memória para “perfazer a codificação dos alicerces sem cal e das paredes empedernidas de lodo”, cotidiano presente, os excessos de non sense da vida que se leva e referências constantes à arte, aos artistas, aos outros que também se debruçaram sobre o papel em branco, vendo nele as notas de rodapé para encontrar hematomas submersos na pele das paredes. Por tudo aqui passa a alegoria. Porque estão, às sete horas e trinta minutos, Os homens. E a cidade. Aquela, petrificada no sincronismo, metodismo, abstracionismo das réstias disformes do cotidiano. Ou coisa parecida. Irreparável. […] É o fato mesmo das peripécias das palavras descontínuas que vão anestesiando o amanhecer”.

Este longo texto que vai das cinco horas e três segundos ao entardecer das dezessete horas e cinquenta minutos, em que o leitor se encontra com a intimidade do escritor que confessa: “Este texto escrevi. Com fôlego. Não é outra coisa. É real, dizem. Em suma, pensado. Incomoda. Eu sei. Desordena qualquer conjectura. Embora tenha reinventado tudo. Estritamente infestado do cotidiano. Vertiginoso. Deve ser isso. Numa só reencarnação escolástica de estrosa ousadia. Só para espantar as pessoas. E na descontinuidade das palavras, anestesiando o amanhecer, no descontentamento nas palavras avulsas em seu ruído sobre determinadas amarras estruturais da frase e de certo servilismo formal dos colonizadores da literatura, afirma-se que entre o desespero e o medo não nenhuma resistência! Sempre a reflexão sobre o escrever, sobre dar vida ao imerso, fazer aparecerem à luz dos refletores, … as ancas sinuosas do cotidiano na asneira geral da imaginação.

Este é o texto mais longo desta coletânea e é imperdível. Mas impossível de resumir. Para quem se comoveu na leitura, fica apenas a possibilidade de agir como Borges: transcrever palavra a palavra… não há outra saída. Por isso, melhor sair deste texto para encontrar os próximos.

Em As miudezas do cotidiano, um texto curtíssimo, na sequência do livro como a dar um alívio ao leitor, porque aqui palavra e ordem dos textos não são acasos, aparece o primo Luciano e as iniciações sexuais:

PRIMO LUCIANO me abisma. Desta vez sob o efeito de um gesto. Ainda que, tempestuoso. A propósito, motivo de cumplicidade. Trata-se de um entendimento. De natureza múltipla, é isso, entre nós. Sim, à deriva desta manhã. Atemporal. Tanto assim, pediu segredo. Absoluto. Senão, denguices, nunca mais. Por isso essas coisas conosco aconteceram. Como um despojado sentimento entre mim e ele a partir desse fato. Indizível.
Que nos é comum. Essas coisas – essas miudezas cotidianas – certamente pertencem a nós dois. Em consequência disso, a partir de agora desfrutamos de insaciável hábito, pois. Para desdouro dos meninos. Das mulheres. E em seguida, do espanto dos homens.

Arestas tropicais contém três episódios alegóricos de um tempo que não se deve esquecer, o da ditadura militar. Os dois primeiros de indivíduos: Wallace foi metralhado diante das janelas escancaradas e das portas entreabertas da cidade baixa. Morreu feito cão sem dono, espragatado às margens do rio. Fora ladrão. Doca, a personagem do segundo episódio, era “o rei do pedaço”, pessoa respeitada na comunidade. Foi denunciado por um tal Jonas. Foi quando Cruz das Armas presenciou o maior desatino:

Isto porque, o quartel do 15 RI amanheceu com seu paiol ameaçando explodir Cruz das Armas e adjacências. Os adultos, depois, me contaram coisas: dos rostos assustados se escondendo por trás das portas e janelas. As pessoas fugindo em disparada pelas ruas com cheiro de cadáveres, no percurso de Macaíba até o Jardim Samaritano.

O terceiro episódio vem nomeado como Utilidade pública. Uma cidade que se chama Pananeia… onde impera a miséria: 98% da população se alimentava de detritos. Em certo momento, os habitantes sentiram dores pelo corpo e foram se deixando morrer… Mas Pananeia criou adornos brilhantes, De preferência, aquele adereço artesanal de córneas desconexas, ainda vivas. Transformando-as em objeto de moda para enfeita o pescoço do mundo. Pananeia se torna lugar em que se dilaceram cadáveres e para não haver evasão de rendas, começou a cobrar fabulosos ingressos destinados à exposição dos corpos. Engordar a conta-corrente. Estourar miolos e vidas para aumentar disponibilidades financeiras. [Este episódio parece tratar do presente, Considerando o que está acontecendo no Brasil, nesta semana longa que se iniciou com o locaute e greve de caminhoneiros independentes do transporte em 21.05.18 e segue ainda hoje, 28.05.18 em função da política de engordar as contas-correntes dos rentistas estrangeiros da Petrobrás]. Mata-se por Pananeia inteira pela miséria para que esta se torne instrumento de riqueza dos exploradores de cadáveres!

Em Interstício o leitor poderia esperar um espaço de fôlego. Não há. Aqui o diálogo é entre o narrador/escritor e Augusto dos Anjos (um predecessor? Afinal, Augusto dos Anjos a seu tempo não se deixou classificar em qualquer das correntes literárias em voga como Políbio Alves hoje não se deixa classificar sequer segundo os gêneros discursivos conhecidos). Ao mesmo tempo em que se conta a história de Valmir, jovem adolescente que sonha correr mundo como Mara. Aqui se faz avaliação do ofício de escrever, do expor-se às agruras do leitor:

… é preciso restaurar a maldição nirvânica do poder letal da expressão. Escavo feridas, corto os pulsos, deixo o sangue escorrer sobre a brancura do papel. De cada metáfora, em torno do espaço da linguagem, o pânico das intenções veladas, onde configuro alegórica viagem.

Agora, nômades intimidades tem como ambiente um velório, a que chega um desconhecido vestido de terno branco e pés descalços. Carregava uma garrafa de cachaça e vinha com um charuto aceso. Depois de um tempo sentado no chão, levanta-se e “o mijo se empasta. Rápido. Desencorpa bolhas, espalhando-se sobr flores murchas dentro do caixão”. Enquanto isso, Biuzinho, sacristão, admira os azulejos que adornam a igreja: O prazer de alardear a dualidade da vida.

Em Fábulas obscenas, o narrador nos traz quatro supostas fábulas sem “lições de moral” e sem bichos falantes… Homens. Cada uma delas enlaça diferentes histórias curtas, todas entrecortadas por extratos retirados de aqui e acolá: propagandas; reclames da Rádio Difusora; dizeres de cartazes; informações curtas como “as inscrições do vestibular começam terça-feira”; ou ainda slogans de programas oficiais como Dê o seio ao seu filho, da campanha de incentivo ao leite-materno ou É fácil, faça sua horta em casa; declarações de políticos e extratos de editoriais. Aqui, o autor leva sua técnica de fragmentos e colagens ao paroxismo. Incomoda, agride, faz rir e chorar porque escancara nossa condição de homem moderno que deixou para o passado a unidade/totalidade que a fé religiosa fazia crer fosse real.

Todas as “colagens” aparecem nos entremeios das histórias contadas [também elas fragmentos colados], como a do Alemão, preso para prestar informações sobre o assalto de joias num shopping center, torturado com palmatória de 2 quilos, que precisou ser carregado para o Pronto Socorro seguido das declarações curtas do Superintendente de que em suas delegacias não permitia violência, que no entanto foi, é e continua sendo prática corriqueira. Aqui circulam personagens como Zefa Cafu, prostituta e catadora de tudo nas ruas; Selma, doméstica, mãe que luta para conseguir dinheiro para melhorar a vida do marido preso; Ivone, que é chamada de cúmplice de ações do amante que desconhece, mas “puta com dignidade”; Hermannez, músico que se torna assaltante para sobreviver; Madame Valquíria que atende consultas referentes a questões jurídicas, assuntos empresariais, vícios de embriaguez, amores desfeitos, conquistas amorosas; Creuza cuja família azeitava as mãos de “poderosos” para tirar seu marido da cadeia…

Este conjunto de histórias entrelaçadas a reflexões sobre a escrita e sobre o mundo, entremeadas pelas citações aparentemente forjadas (colagens), pela presença quase incompreensível dos reclames e dos slogans de campanhas oficiais, tudo dá uma amostra do cotidiano caótico, numa alegoria impagável! Coisa de gênio.

O texto que encerra esta coletânea de ficção e realidade, No meio do pântano, a memória é uma profunda reflexão sobre o escritor, sobre a escritura, em que o autor se mostra: sou aquele que, pessoalmente, se exorciza. Ou melhor, escreve. Ainda que, insatisfeito, reelabora cada dia, anos a fio, inevitável manuscrito. Ele faz parte de um nós, autores vivos, enlouquecidos de contemporaneidade e de releituras.

Este é um livro impressionante. Não dá para perder!

Referência: Políbio Alves. Os ratos amestrados fazem acrobacias ao amanhecer. João Pessoa : Mídia Gráfica e Editora, 2015.

“As minhas mentiras de pernas quebradas”

“As minhas mentiras de pernas quebradas”

“Minhas nobres senhoras e meus senhores sofredores! Coragem! O Brasil ainda continua grande! Com minha mais orgulhosa humildade e minha mais impávida pureza da minha alma e do meu coração, virtudes que me são permanentes e verdadeiras por natureza, venho pedir-lhes as minhas ímprobas desculpas e implorar o vosso perdão pelas promessas rigorosamente cumpridas, desde o primeiro dia no cargo mais elevado do Brasil, que ocupo com muita honra.  Promessas do bem-estar-de-todos. Só não peço desculpas e não imploro perdão somente àquela pequena minoria de donos do mercado e do mundo, os poucos satisfeitos comigo, que prometeram votar em mim se eu fosse candidato a presidente do Brasil. Não se incomodem com eles. São poucos. Quase ninguém, são menos de 1% dos brasileiros. Alguns nem brasileiros são. Mas, não é por vontade deles, e nem culpa deles, que todos, eles não, estamos sofrendo. É por culpa das minorias radicais de caminhoneiros grevistas. Por ordem deles – dos pouquíssimos donos do mundo – e vontade deles, menti tempo todo de mil e uma maneiras. E as mentiras sequer viraram verdades. Eu disse tempo todo que agora o Brasil ia melhorar. Disse que estava fazendo tudo para o bem de todos. Assim, procurei enganar a todos tempo todo e me enganei. Ninguém mais acredita em mim. Inacreditavelmente, me esqueci da inteligência e da sabedoria de vocês, daquela verdade popular científica, que vocês conhecem de cor e salteado: “a mentira tem pernas curtas”. E pior, descobri que minhas mentiras têm, além de pernas curtas, pernas quebradas. Mas, como eu sou muito persistente e tenho verdadeiro dom para isso, continuo dizendo que o Brasil está melhorando “para todos”. Continuo na perseverança, continuo acreditando naquela verdade científica, proferida há séculos pelo audacioso Voltaire “…Mentez, mentez toujours, il en restera quelque chose”, E se isso não é suficiente, então acredito, em nível mais elevado, na verdade sobre a mentira que o grande pensador Antônio Gramsci admoestou, que é preciso ter cuidado, porque a mentira dita muitas vezes de maneiras diferentes pode virar verdade. Por força desta crença, e antes de tudo e acima de tudo, eu não posso faltar à palavra e descumprir os acordos secretos e sigilosos dos poucos donos do mercado, que me apoiam diuturnamente. Embora eles permaneçam escondidinhos, protegidos por policiais e por juízes. Ninguém pode saber quem são. Só podem e devem aparecer os meus nobres e corajosos ministros. Ah, principalmente, o Parente. Estes, sim, são meus amigos fiéis e inseparáveis. Os verdadeiros novos “heróis da pátria” – da “Ordem e Progresso”. Assim, eu também quero ser herói. Exatamente do jeito que o justíssimo Moro se autoproclamou: “o herói do Brasil”. Com esta elevada nobreza, eu continuo ocupando o cargo de presidente do Brasil, porque conquistado e garantido pela Constituição brasileira. E digo a todos: “fico”. Orgulhosamente, Temer”.

Que bonito!

No curso da nossa história atual, primeiro veio a “tragédia” –  a força dos movimentos de rua e a força da mídia hegemônica usadas para o golpe do impeachment de Dilma. Agora, a “farsa” – o golpista Temer e a mesma mídia hegemônica usam a força policial e militar para acabar a greve e conter os movimentos de protestos. Ainda hoje fico entusiasmado e alentado quando leio, releio as correções que Marx faz aos pensadores e historiadores sobre o golpe de Estado de Luiz Bonaparte. Marx adverte: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa […] Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”. E sobre o papel e a força individual do golpista Bonaparte, Marx escreveu: “Eu, pelo contrário, demonstro como a luta de classes na França criou circunstâncias e condições que possibilitaram a um personagem medíocre e grotesco desempenhar um papel de herói”.

Fico me inquietando e perguntando, atormentado diante das circunstâncias – tragédia e farsa – em que vivemos: como analisar as forças determinantes, no seu todo, responsáveis por este caos assustador? As respostas são longas, diversas e complexas, mas continuo convencido de que precisamos, mais do nunca, analisar a conjuntura caótica na relação com os fatores de produção da estrutura e as forças ideológicas da superestrutura.

Um pônei chamado representatividade

Um pônei chamado representatividade

Representatividade importa, mais do que isso, ela incomoda quando representa um grupo que não tem ou não está no poder, e ela pode ser sim um atalho para se chegar mais rápido a um determinado lugar. O detalhe é que a pessoa não conseguiria chegar sem o atalho, e não é por competência (antes fosse), mas porque a barreira dos preconceitos em uma sociedade majoritariamente machista, racista e heteronormativa e, principalmente, hipócrita, não é transponível.

Outro dia, (essa coisa de não lembrar datas é muito ruim) escrevia um texto e lembrei que as crianças sofrem muito na fase escolar por vários motivos, hoje vou falar de um deles: a insegurança.

Não escolhi esse tema aleatoriamente, como vocês poderão perceber, é que a insegurança deixa marcas profundas nas crianças: medo, incertezas, timidez, baixa autoestima, depressão, ansiedade, transtornos alimentares, e, a cereja do bolo, problemas de aprendizagem.

E é por essas e outras que a luta por representatividade é tão fundamental, mais do que isso é urgente e terapêutica. Dois livros que sempre gostei muito de usar na escola e em que sempre embasei meus projetos na questão da diversidade foram Menina Bonita do Laço de Fita, de Ana Maria Machado, e o Gato Xadrez, de Bia Vilela. Dois livrinhos, maravilhosos e acessíveis, que encantam as crianças e oferecem com suas estruturas e linguagens lúdicas o prazer da leitura.

A menina bonita é uma personagem negra, uma menina linda, sua descrição é maravilhosa, que encanta um coelhinho branco e por meio de peraltices desfaz vários preconceitos revelando ao final ancestralidade e hereditariedade. Quando conto essa historinha vejo os olhinhos de jabuticaba de meninas e meninos brilhar como nunca, é o poder redentor da literatura. A partir daí, ganham força e fôlego pra enfrentar a chuva de comentários, entreolhares, e incômodos de origem racista que vão persegui-los por toda a vida.

Acho que até devo um enorme agradecimento à autora: Muito obrigada, Ana Maria Machado. Já Bia Vilela, do outro livro mencionado, por meio de um gatinho, apresenta ao universo dos pequeninos as possibilidades de cores e rimas, talvez a autora fosse vidente e se antecipou a imposições e definições de cores por gêneros, fato é que as crianças se permitem usar todas as cores para pintar seus mundos e universos com os tons e poesias que assim desejarem.

Agora quero dizer da minha alegria em ver que o mercado editoral e as escolas estão sensíveis a essa necessidade de representação, embora eu saiba que ainda falte muito para se alcançar o desejável: superar as datas comemorativas. Uma destas surpresas se deu com o livro literário Um pônei chamado cavalo, do Alexandre Costa.

Alexandre é um amigo que se viu pai de um menino negro, e aflito com a escassez do mercado literário (e tantos outros) descobriu-se escritor, não escreveu uma ou duas histórias, escreveu um bocado delas. E a história da almofada, digo pônei, digo cavalo… Enfim essa história de uma realidade atual e não contada antes saiu impressa num jornal de domingo, e logo ganhou reconhecimento, transformando-se em livro bacana com ilustração e tudo.

A história tem uma linguagem que ludicamente trata de questões bem pesadas, e discute inclusive o fazer linguístico, a semântica, as escolhas, o sincretismo religioso e, fundamentalmente, é um livro que fala de uma relação de pai e filho, sem incensar o pai que cuida do filho, mas trazendo à tona momentos de troca de saber, intimidade e confiança necessários para a vida dos dois.

Talvez a ilustração dos personagens negros e a abordagem da religião de matriz africana entrem em uma seara difícil, mas a literatura tem que dar conta de coisas tais, e dá.

A prova disso é que a voz da negritude está alçando voos cada vez mais altos, já falei sobre Racionais ocupando a academia essa semana. Além do que os pretos e as pretas estão consumindo, e para tal querem comprar produtos que os enxergue e os representem:

“O Fulano Pai cantava essa canção para o Fulano Filho porque achava que era bom, era como cuidar do seu pequeno. Na verdade, essa canção era uma oração, para um santo chamado São Jorge, mas que também era chamado de Ogum.”

O texto não apresenta juízo de valor, ou impõe algo para o filho ou para os leitores, mas registra como se dão as trocas culturais entre pai e filho, e a importância desses momentos que precisam mesmo ser representados nas artes, e na vida.

 A obra apresenta ainda uma família dessas muito comuns nos nossos dias, os pais não moram na mesma casa e a criança mora com a mãe, sendo assim visita o pai. Só isso já valeria a adoção do livro em todas as escolas públicas ou privadas, representar esse novo modelo de família, mas que por motivos estranhos e inomináveis (política diminuta) são transformadas em não-família ou meia-família – como se isso fosse possível, ao invés de explicar que as famílias atuais,  assim como o gato xadrez, podem assumir uma nova roupagem e ter outras características o que não as fará menores, ou maiores, ou certas e erradas, apenas diversas.

Representatividade nos dias atuais exige mais de nós. Os meninos e meninas que vivem em situação semelhante precisam sentir que não vivem nessa condição por culpa de alguém, algo, ou de si, e que isso não os impedirá de serem felizes e terem carinho. O que é impeditivo é a cultura excludente de que só existe um jeito e um modelo, casos de alienação parental e principalmente o abandono paterno. Livros como este servem justamente para mostrar que adultos devem ser adultos, e que pais precisam assumir não apenas responsabilidades financeiras, mas principalmente laços de afeto e cuidados cotidianos.

E o livro é todinho recheado de aspectos que precisam mesmo ser ressignificados: a brincadeira entre pai e filho, o espaço para a imaginação, os gostos, o respeito, a escuta atenta, o tempo, e a presença de um na vida do outro.

 

Ps.: Este texto não é, nem pretende ser uma resenha porque outros muito maiores já o fizeram (como este sujeito que nomeia o blog, de quem sou invariavelmente fã). Mas parece-me necessário que, neste momento de enfrentamento, tenhamos mais esse cuidado com nossas crianças negras, com essa volta temática. Veja a resenha de Geraldi em:  (Ela também foi publicada pelo autor em Textos sobre textos: registros de leitura, da Pedro & João Editores)

 

 

Os faniquitos do mercado: atrevimento de caminhoneiros!

Os faniquitos do mercado: atrevimento de caminhoneiros!

Há locaute/greve de caminhoneiros. As cidades estão paradas porque não há gasolina, as gôndolas dos mercados estão ficando vazias. Os empresários dos transportes com o rabo recolhido entre as pernas porque, pela vez primeira, a polícia abriu 67 inquéritos para investigar ‘locaute’, coisa que jamais fez.

Os petroleiros da refinaria de Paulínia já estão em greve e na madrugada entra em greve nacional toda a categoria: em defesa da Petrobrás. As aulas estão suspensas nas universidades e na maioria das redes estaduais de ensino.

O neoliberal prefeitinho de São Paulo, Bruno Covas, vem a público para dizer que tudo está normal em São Paulo, mas que somente pode garantir o tráfego dos ônibus até terça! Isso que é normalidade! E ainda que normal, faz um apelo: os cidadãos não podem ser prejudicados e a greve tem que terminar.

Pois a greve que abastece vai caindo, diminuem os pontos de bloqueio. Mas esta parada deu o sinal de alerta e mostrou o poder de uma categoria profissional. Eles podem parar o país. Morrem frangos, o leite é jogado fora, não há insumos para alimentar os porcos… ainda assim os agricultores vinculados e explorados pelo agronegócio dão apoio aos motoristas que estão nas estradas!

Algo de novo está acontecendo no país, mas os imbecis que o governam são incapazes de perceber o ambiente social e a ebulição que se anuncia.

O “coisa”, já sem viagra para atender a bela, recatada e do lar, reúne-se com o intocável Pedro Parente. O ministro da fazenda saiu do encontro dizendo que haverá aumento de impostos para cobrir os custos dos subsídios oferecidos aos empresários dos transportes no óleo diesel. Um rombo de 9,8 bi que o povo tem que pagar.

Mas vai mais longe o imbecil ministro: avisa que dentro de três meses os preços do óleo diesel voltarão a ter os reajustes segundo as oscilações do mercado… O mercado: somente o mercado, esta instituição não invisível, mas com mão gatuna que tudo recolhe para si. Sabemos que é “o mercado”. E os ministros e “coisa” só enxergam o mercado.

Como Pedro Parente esquece que o maior acionista da Petrobrás é o Brasil, continuará presidente da estatal prestando os serviços prometidos aos acionistas do exterior… aqueles mesmos a quem deu de presente alguns milhões antes mesmo de a justiça norte-americana se pronunciar.

E este Pedro Parente não cai e manda no “coisa”. A administração da crise se faz pondo mais lenha para que o fogo cresça até que tudo se queime… parece que não temos governo! E mesmo estes imbecis acenando para o “mercado”, a Petrobrás perde “valor de mercado” para desespero da leitoa da Rede Globo.

Enquanto isso, outros imbecis pedem intervenção militar. E os generais da reserva se manifestam, mostrando suas garras fascistas! Para agrado dos bolsomitos e dos que enriqueceram na ditadura militar (neste tempo havia até um ministro que tinha o apelido dado pela imprensa francesa de “ministro 10%”). E para alegria de outros incautos imbeciloides que levantam bandeiras nacionais imaginando que o que nos falta é “ordem” e que com a “ordem” tudo virá como graça divina. São estes os mais burros de todos. Mal sabem que com a intervenção que pedem nem Bolsonaro sairá ileso!

Para além de consumidores de currículos

Para além de consumidores de currículos

A vida cotidiana se inscreve em um espaço que se modifica e intervêm nas ações humanas, e determinadas condições estruturais (físicas e humanas) podem ser responsáveis por possibilitar ou dificultar intercâmbios entre pessoas e saberes. Se por um lado há uma estrutura na qual se entrecruzam intencionalidades para receber seus ocupantes, por outro, há um espaço a ser habitado e modificado pelos seus atores. E o que define a singularidade da ação educativa e das práticas escolares são elementos como sua inscrição no tempo e no espaço, sua concretude pela linguagem e a produção de sentidos às ações. Isso sim implica em troca dialógica entre instituição escolar e história dos sujeitos.

Mesmo estando em um universo permeado por relações de poder e por uma política educacional minuciosamente definida, o sujeito não se reduz a essa rede e joga com os mecanismos da disciplina: conformando-se a ela, e também a alterando. Se há uma produção racionalizada, instituída e centralizadora – tal qual a arquitetura curricular – que emana de algum lugar, há igualmente outra produção qualificada de consumo, que é astuciosa e dispersa, que se faz notar pela apropriação dos produtos impostos por uma ordem. Por essa razão, é possível conceber um sujeito que, por meio de sua inserção na ordem curricular, possa fazer com os componentes curriculares a sua forma de atuar no mundo. Isso sim é desafiar-se ser um professor.

Michel de Certeau, por conceber o cotidiano das práticas como patchworks, estabelece uma distinção entre lugar e espaço que me parece muito operatória:

“Um lugar é a ordem (seja qual for) segundo a qual se distribuem elementos nas relações de coexistência. (…) Os elementos considerados se acham uns ao lado dos outros, cada um situado num lugar próprio e distinto que define. Um lugar é portanto uma configuração instantânea de posições. Implica uma indicação de estabilidade.

Existe espaço sempre que se tomam em conta vetores de direção, de velocidade e a variável tempo. O espaço é um cruzamento de móveis. É de certo modo animado pelo conjunto dos movimentos que aí se desdobram. Espaço é o efeito produzido pelas operações que o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais.” (CERTEAU, 1994, p. 201 -202)

Na perspectiva da racionalidade técnica, o melhor modo possível de se organizar pessoas e coisas é atribuir-lhes um lugar, um papel e produtos a consumir. Entretanto, os sujeitos nem sempre aderem a tal esquadrinhamento e escapam, mesmo que silenciosamente. Enquanto se supõe que as coisas e as pessoas foram postas em seus lugares, uma sequência de movimentos astutos e sutis vai alterando os objetos e os códigos, e estabelecendo uma (re)apropriação do espaço e do uso ao jeito de cada um.

A construção da ação docente e da legítima reforma educacional está naquilo que é dado cada dia, naquilo que pressiona os sujeitos e que os prende intimamente, quase invisível. No grande quadro de normativas e diretrizes, há uma trajetória cotidiana sendo construída pelo professor – que o leva a não apenas consumir as propostas curriculares que lhe são propostas/impostas, mas também a produzir saberes por meio de operações e táticas capazes de delinear o espaço próprio de sua atuação – pela qual é responsável.

Dessa forma, compreender o espaço e o lugar é compreender o dever que se assume em relação ao agir. “Aquele que pratica ato de compreensão (também no caso do pesquisador) passa a ser participante do diálogo (…) e sua observação é parte integrante do objeto observado.” (Bakhtin, 1997). É por isso que o sujeito não pode ignorar o fato de que na decisão que toma, ele assume responsabilidades frente a um horizonte de possibilidades. É assim que o professor participa eticamente do campo educacional: compreendendo o dever que se assume, ao mesmo tempo, diante dele e estando nele.

 

Referências

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.

 

 

 

 

O que é o estudo dos burros…

O que é o estudo dos burros…

Dei sorte: acabo de comprar na padaria os dois últimos litros de leite. E no caixa ouço a conversa de um coxinha: este governo petista só poderia dar nisso… afinal, o Temer foi vice da Dilma. É PT. Nunca imaginei que o conhecimento do óbvio fosse uma virtude de coxinha.

Pois não é que agora, ouço na rua a manifestação de coxinhas com bandeiras do Brasil. Querem derrubar o governo do PT encabeçado por Michel Temer… Não é incrível? O que é o estudo…

Estes imbecis seguem uma cartilha que não conseguem esquecer: elegeram um inimigo público e não enxergam mais nada. Compreendem o mundo como o compreenderia um sapo qualquer. Pior, que o sapo sabe mais,  muito mais… inclusive a propósito da vida dos homens.

Seriam os coxinhas gente??? Perguntei ao meu coxinha da padaria: quais os ministros do governo Temer que são do PT. Ficou me olhando com cara de aparvalhado… nem sabe que existem ministros, muito menos que os ministros da “equipe de ouro” de Henrique Meirelles estão realizando, concretizando a proposta econômica de seu candidato, o impoluto Aécio Neves!!!

A ignorância é tanta que já virou inguinorância!!! E o pior é que é gente formada por nossas universidades… alguns se acham doutores porque fizeram medicina ou direito…

Só nos resta, mesmo, exclamar: O QUE É O ESTUDO!!! Como são sábios estes imbecis.