por João Wanderley Geraldi | jun 8, 2018 | Blog
Os caminhoneiros rejeitam a representação sindical existente; aliás, na área de transporte de cargas e passageiros, os dirigentes das entidades sindicais costumeiramente convocam paralisações conluiados com o patronato quando estes demandam aumento do valor das tarifas e dos preços dos fretes. Há exceções, mas insuficientes para moldar forças capazes de romper o cerco dos rumos ditados pelas regras. Este painel reduz a representatividade da imensa maioria das direções ao burocratismo imposto pela vinculação e submissão ao Estado a que se sujeitam como se tivessem sido nomeadas para um subtipo de autarquia. Isto não aconselha o simplismo de abandonar o que existe e é real para, na contramão, cair na armadilha das organizações paralelas, experiência levada a cabo com efeitos desastrosos em tempos não muito distantes; é ao contrário um campo a ser disputado e um espaço a ser ocupado pelos que realmente são leais aos trabalhadores. Uma das dificuldades enfrentadas atualmente pelos sindicatos verticalizados é a falta de sustentação organizada na base de cada local de trabalho e a ausência de práticas em que a representatividade seja submetida ao controle direto e democrático dos representados. Somam-se a isso outros fatores:
1) – a subordinação da pauta de reivindicações dos trabalhadores aos ditames das resinas impregnadas nas esteiras de governabilidades, talvez a causa maior da perda de credibilidade das direções, inclusive as mais leais aos trabalhadores, quando ousam convocar atos de avanço nas conquistas ou resistência no campo dos direitos e interesses de classe;
2) – Ingrediente inseparável da democracia, a exposição das feridas e das fraturas conduz à sintetização, solução insubstituível por receitas lenientes e meramente protelatórias ou internações nos remédios delinquentes das conciliações. A composição de conflitos é a síntese própria de um sistema democrático de relações entre camadas sociais colidentes. Compor conflitos é afastá-los das areias movediças da irracionalidade para as seguras margens das soluções duradouras; conciliar é dissimular, usar o disfarce do espelho d´água para encobrir violações e desregramentos abaixo das superfícies do avesso, não é, portanto, uma ação digna de um Estado que se proclama Democrático e de Direito.
3) – o abandono material das propostas de combate à exploração da força de trabalho e contra a opressão da inexistência de garantia de emprego. As propostas de conciliação de conflitos inerentes a relações contraditórias subtraem dos trabalhadores as possibilidades de construção de uma sociedade mais justa, mais humana, menos desigual e inteiramente solidária. Os sonhos, como as paixões, são materiais a ser despertados dos redutos da intimidade para a configuração de um novo modo de viver. Ingrediente inseparável da democracia, a exposição das feridas e das fraturas permite sintetizá-las em sintonia com os elementos inseparáveis as necessidades insubstituíveis por receitas meramente protelatórias ou internações nos pântanos dos remédios delinquentes das conciliações.
*Texto cedido para republicação pelo dr. Cláudio Ribeiro a pedido do prof. Wanderley Geraldi
por João Wanderley Geraldi | jun 8, 2018 | Blog
Nota introdutória
No texto-gerador que remeti aos convidados desta mesa-redonda, havia tomado uma passagem (pela segunda vez) de Proust como epígrafe. Face à dinâmica do próprio Congresso, acrescento nesta “nota introdutória” três epígrafes-homenagens:
. Ao povo brasileiro, seguidamente logrado, é verdade, mas que falando hipoteticamente ou parataticamente, tem sabido compreender mais do que monossílabos, embora lhe sobrem somente partes monossilábicas da riqueza que produz para o consumo polissilábico de uma pequena minoria;
. A Paulo Freire, que obviamente não assessorou o Mobral, na década de 70;
. À feijoada brasileira, invenção escrava, a mostrar que nem sempre nem obrigatoriamente o gosto tem que ser “enformado” num enlatado (cultural ou alimentar).
… nossa sabedoria começa onde a do autor termina, e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo o que ele pode fazer é dar-nos desejos. (Proust. Sobre a leitura)
Pelas indicações dadas por Manacorda em seu estudo sobre a sociedade e educação no antigo Egito, nota-se que a preocupação com a linguagem e com seu ensino é uma constante na história. Um fragmento citado pelo autor ilustra como a questão era fundamental e em que sentido era fundamental:
Se a sua boca procede com palavras indignas, tu deves dominá-lo em sua boca, inteiramente… A palavra é mais difícil do que qualquer trabalho, e seu conhecedor é aquele que sabe usá-la a propósito. São artistas aqueles que falam no conselho… Reparem todos que são eles que aplacam a multidão, e que sem eles não se consegue nenhuma riqueza. (Do ensinamento de Ptahhotep , vizir do rei Isesi, da 4ª. dinastia – 2450 a. C.)
Dois mil e quinhentos anos de Quintiliano, o ensinamento de Ptahhotep lança as bases dos estudos da oratória, apontando com clareza meridiana que a formação das castas dirigentes envolve o domínio da linguagem.
Evidentemente, as diferentes respostas dadas para esta formação especificada variaram ao longo da história, pois tais respostas estão/estarão estreitamente entrelaçadas às necessidades e momentos políticos vividos em cada civilização. Ao tempo de Ptahhotep a escrita já existia, mas era aos escribas que cabia a técnica da escrita, e ao dirigente a fala no conselho. Mas a escrita, “que guarda a recordação de tudo e é a mãe das Musas”, rapidamente deixa de ser um mero saber técnico. Mais oumenos quatrocentos anos depois de Ptahhotep, já se pode ler numa antologia escolar egípcia:
Os escribas cheios de sabedoria, do tempo que seguiu ao dos deuses… escolheram como próprios herdeiros os livros e os ensinamentos que deixaram. Elegeram como sacerdote ritualista o rolo de papiro; da prancheta da escola, fizeram seu filho preferido. Os ensinamentos são as suas pirâmides; o cálamo, o seu filho; a prancheta de pedra sua esposa; do grande ao pequeno, todos se entregam a eles como filhos, porque os escribas estão à frente … E são chamados pelos livros que escreveram… (Manacorda, História da Educação. Cortez/Autores Associados, 1989:31)
Se antes, para o exercício do comando bastava o domínio da palavra falada, e a escrita servia apenas para o registro histórico, agora um sábio já não se faz sem sua bagagem de livros. E o domínio da técnica de ler e escrever tornar o escriba não só aquele que tem a chave de acesso à sabedoria historicamente produzida e registrada, mas também o produtor desta sabedoria: leitores dos registros dos “tempos dos deuses” dão às palavras do passado a interpretação no presente. Entre a força do dizer e a força do fazer, introduz-se uma nova forma de construção da força do que diz: a autoridade do saber, um saber que não mais deriva diretamente da fala dos deuses, mas um saber que se funda na recolha dos saberes registrados a que a leitura dá acesso.
Muitos anos nos separam dos antigos egípcios; as sociedades contemporâneas são muito mais complexas; aparentemente não vivemos mais em sociedades de castas; formas novas de registros de saberes estão povoando nosso cotidiano. Entretanto, continuamos às voltas com uma questão básica, a do acesso ao saber e, consequentemente ao poder do saber.
Numa sociedade que se quer construir democrática, o direito de acesso à cultura historicamente produzida passa pelo problema da leitura, e para ler não basta dominar técnicas de registro: o mero domínio de um alfabeto pode produzir outros tantos Walfried Strabo, que depois de muito zelo aprendeu a “ler” textos em latim e surpreendeu-se com um pequeno livrinho em alemão, “maravilhado porque era possível ler e, ao mesmo tempo, entender o que tinha lido”.
Esquadrinhada por muitas pesquisas, nosso feliz gosto pelo detalhe vem apontando cada vez maior quantidade de questões envolvidas no ato de ler. Evidentemente, a estas questões por si sós de difícil tratamento, associam-se outras de ordem social que, respondendo a um projeto de manutenção e aprofundamento da atual estrutura da sociedade, complicam ainda mais a ação pedagógica daqueles que se dedicam ao ensino da leitura. Sem qualquer demérito aos estudos de detalhe, mas, ao contrário, a partir deles, toma-se consciência de que um projeto de democratização da leitura caminha junto a um projeto de democratização da própria sociedade. É absolutamente impossível a formação da cidadania quando se recusam ao cidadão os meios de sobrevivência, que numa sociedade como a nossa inclui o direito à leitura. E de uma leitura cuja prática não se dá pelo reconhecimento de um sentido dos textos que se leem, mas de uma leitura cuja prática seja a da construção de sentidos, nas contrapalavras que o leitor traz às palavras do autor.
Numa tal perspectiva, a alfabetização é apenas um primeiro passo, inicial, de um processo que deveria ser, a partir de então, uma constante. Pela leitura, ampliam-se para o leitor suas possibilidades de interlocução e, consequentemente, suas possibilidades de construção de categorias de compreensão do mundo: constituímo-nos nesse processo e, quando a sociedade recusa ao cidadão o direito de ler está recusando a ampliação de suas possibilidades de constituição enquanto sujeito. Note-se que não se está defendendo que somente pela leitura um sujeito se constitui como cidadão. Defender um tal ponto de vista, além de fetichizar o livro e a leitura, seria recusar evidências óbvias. O que se está defendendo é que somos o que somos graças aos processos interlocutivos de que participamos e de nossa ação neles. É neste sentido que a escolarização, ao possibilitar a aprendizagem da escrita, aprendizagem que exige mediadores, pode expandir as oportunidades de participação nestes processos.
A ênfase no “pode” não é gratuita. Em breve exercício de montagem, extraindo falas de alguns autores que discutiram questões de ensino da língua nos últimos cem anos, perplexo, surpreendo-me com a morosidade da escuta: desde Rui Barbosa insiste-se que a aprendizagem da linguagem se dá pela prática linguística e não pelo domínio de conceitos de análise da língua. E é no contexto de uma prática de linguagem que se situa a leitura – encontro entre sujeitos – (e não estou pensando num sujeito ex-nihilo mas num sujeito heterogêneo e ideologicamente constituído) que não cabe ao professor apenas testemunhar: enquanto sujeito, também ele leitor, é sua tarefa acompanhar a caminhada interpretativa do leitor que se forma, apontando pistas, restabelecendo passos para compreender que contrapalavras seu aluno trouxe para o texto que lê, produzindo a compreensão que produziu.
Nos últimos anos, grande número de pesquisadores tem associado a seu trabalho de reflexão tentativas de ação em escolas ou fora delas, buscando tornar a leitura uma prática social efetiva. Utopistas ou não, a maioria deles compartilha a crença de que não é possível cruzar os braços esperando que mudem as condições sociais concretas para que o acesso ao saber possa se dar. Apostando nas frinchas de uma estrutura que se quer eterna, tem apontado alternativas para um trabalho escolar aqui e agora que se some ao conjunto dos movimentos sociais de construção de uma sociedade democrática. Defendendo a leitura crítica, lúcida, ou processual, o fato mais importante é que tornaram a leitura um tema compreendido hoje como uma questão bem mais complexa do que um simples exercício de preencher espaços em branco de uma lição de casa.
Num tal quadro e considerando a) que uma leitura crítica não se faz sem categorias outras que, como contrapontos, dialogam com as categorias que orientaram a produção; b) a situação efetiva da prática escolar, cujos conteúdos se definem numa relação muito particular entre injunções internas e externas à própria escola mudar de linha como pensar a formação de um leitor crítico, no ambiente escolar ou fora dele, escolarizado?
Nota
Por anos seguidos participei dos Congressos de Leitura do Brasil – os concorridos COLEs, eventos em que a voz dos professores podia ser ouvida, sem que necessariamente fossem professores universitários. Possivelmente, à época, um dos eventos científicos mais democráticos no sentido da disponibilidade de espaço para falas que não procedessem da academia: experiências levadas a efeito por professores; reflexões sobre a leitura na escola; tentativas de construção de concepções e mesmo teorias: tudo aparecia na programação e nas comunicações apresentadas. Desde o terceiro COLE estive presente, inicialmente apresentando uma comunicação com base no projeto em desenvolvimento em Aracaju, elaborado por Nilma Gois Fonseca e por mim, em 1983 (O circuito do livro e a escola, texto incluído na coletânea “O Texto na Sala de Aula”).
O texto que se segue foi elaborado para participação na mesa-redonda “A leitura crítica na e sua promoção na escola”, de que participaram a Profa. Alfredina Nery, do ensino básico; o escritor Elias José; o editor Fernando Paixão (Ática, na época); Maria Antonieta Antunes Cunha (UFMG/ Câmara Mineira do Livro). A mesa tentava, portanto, trazer a voz de diferentes formas de atuação na produção, circulação e leitura de livros. O texto que segue deveria ter tido a função de deflagrador das discussões que ocorreriam (e ocorreram). Ele foi publicado nos Anais do 8o. COLE (Leitura: autonomia, trabalho e cidadania). Campinas, ALB, 1992:195-198. Não tenho qualquer lembrança da razão de ter feito a nota prévia, com “epígrafes-homenagens”. Certamente é fácil saber a razão para a referência a Paulo Freire, com quem àquela altura compartilhara a oferta de disciplinas no programa de pós-graduação em Educação da FE/Unicamp. Falar de leitura é lembrar Paulo Freire. As outras duas “homenagens” devem provir das discussões havidas em sessões anteriores do Congresso.
Por fim, o leitor notará que aqui, como em vários outros textos, ocupo-me dos mesmos problemas, manuseando uma bibliografia seguidamente citada. Repetem-se aqui passagens de outros textos. A atividade militante não esconde o retorno às mesmas ideias, a textos anteriores e aos mesmos autores, o que se esconde sem sucesso na produção de textos “científicos”, particularmente aqueles que falam “sobre” e não produzem senão comentários, com alegada “neutralidade”.
por Mara Emília Gomes Gonçalves | jun 7, 2018 | Blog
Escrevo agora sobre saudade.
Desde que mudei de cidade esse sentimento me visita sempre: amigos, imagens, sons, silêncios, cansaços, caminhos, descaminhos, afetos, desafetos, gostos e principalmente conversas.
Aqui tenho estado muito sozinha. Não é que isso seja de todo ruim. Com a saudade aprendo todos os dias o que deve ter mais valor, e o que não. Inclusive isso de aprender se ressignificou, antes aprendia e pronto, agora cada dia construo novo olhar, novas formas de conseguir lidar com o que a vida oferece e tira.
E a vida não tira nada: é presente todo dia.
Sorriso de filhos, voz de mãe, olhar de amor, cabeça doendo, glicose alta, perda de peso, raiva, texto e depois ao final do dia um travesseiro que guarde todos os sonhos e pesadelos. E no outro dia lá estamos nós de novo, mais velhos. Mesmo tendo ganhado tanto, nos habituamos à ingratidão de não reconhecer.
É verdade que isso eu já sabia, aprendi com meu pai ainda no modelo antigo de aprendizagem: ele me contou assim. Ensinava com as histórias mais divertidas, e com exemplos. Mas foi depois quando ele me trouxe a saudade, ai foi que aprendi que é construção diária. Têm dias que ouço sua voz cantando uma música ou outra do Roberto Carlos que passa no rádio. Tem dias que comemoro ou me entristeço com os resultados dos jogos do seu time de coração: ai, dragão! Tem dias que vejo seus pés nos pés e no sorriso maroto do meu filho quando diz: isso não é verdade! Lembro as pequenas e as grandes coisas, dos nossos embates duros e políticos na maioria das vezes, mas em como ele acreditava em mim, e isso me fortalecia. Ficava feliz com minhas ousadias: – você parece doida! E como injustiças, sobretudo com crianças, cortavam seu coração mole. Era um cara solidário, me fez assim socialista. E assim, todos os dias, tenho um pouco dele comigo: a presença física nas memórias afetivas.
Quando comecei a escrever esse texto, ia escrever sobre a saudade que o vídeo do depoimento do Lula me trouxe: tempo de altivez, de esperança, de pessoas mais felizes mesmo, por pouca coisa até: emprego, churrasquinho no fim de semana, uma cervejinha, um passeio, uma compra mais farta no final do mês, um puxadinho na casa, um carrinho melhor na garagem mesmo que parcelado em 50 meses, viajar nas férias, comemorar um aniversário com mais pessoas, fazer uma pós, quem sabe um mestrado ou doutorado, ver o filho na faculdade. E sonhar, como era bom sonhar. Poderíamos tudo.
Um governo solidário, um país solidário. Não socialista.
Essa saudade do que se foi é muito dolorosa, e pior quando até as lembranças vão sendo destruídas. Por isso pensei que gosto de sentir saudades do meu pai, e de tudo que está na minha antiga cidade. E pensando não entendi como posso então não gostar de sentir saudades do Lula?
Faço uma busca dentro de mim, me custa caro demais essa procura porque reativa tantos sentimentos. Escrevo como terapia, e ao final sei que não quero aprender a viver com saudades dele, porque essa opção é violência e destruição. Sei que ele está preso para não alimentar a esperança, as lembranças de outro tempo tornam-lhe maior a condenação e a pena.
Como podem ainda alguns querer provas? As pesquisas trazem convicções e provas suficientes. Não tem materialidade nas acusações? -A saudade não é material. Ou é? Como querer impedir que o pão não alimente quem tem fome?
Saudades a gente tem do que foi bom, porque alimenta nosso caminhar, mas também do que é impossível.
Essa saudade que alimenta é amor, por isso embora quisesse meu pai vivo, diante da impossibilidade aprendo todos os dias a mantê-lo vivo em minhas memórias, de uma forma que o amor assuma uma nova roupagem.
Assim, vejo as pessoas, e também sou uma delas, que mantém Lula vivo não como saudade, mas como esperança, mas Lula não é saudade, porque é possível.
Lula livre! Lula presidente!
por José Kuiava | jun 6, 2018 | Blog
Antes de falar de contas e de quem as está pagando, eu preciso, e com urgência, por misericórdia e direito, que um economista sábio, não necessariamente um cientista teórico acadêmico diplomado, me responda e explique com clareza, com honestidade, com franqueza e com elevado sentimento humano, sem gaguejar, sem titubear e sem troçar, os seguintes problemas: porque a Petrobras instituiu e instalou em sua estrutura de mando e de produção as “auto-sabotagens”? Não sabe o que é isso? Não? Então, perguntando melhor: quais são as vantagens econômicas para a Petrobras e quais os benefícios para todos os brasileiros, o fato da Petrobras mandar (ou vender) grande parte do nosso petróleo, em estado de matéria-prima para os Estados Unidos e para outros países do império dos combustíveis de petróleo, para ser refinado por lá e depois trazido de volta refinado, feito gasolina, diesel, querosene e gás? Diga para nós, quanto custam os fretes de ida e volta, quanto custam para nós os serviços técnicos de refinação e os lucros das empresas imperialistas concorrentes dos nossos combustíveis refinados pelas nossas indústrias? Mais perguntas: porque as nossas refinarias não refinam todo o nosso petróleo necessário para abastecer inteiramente o nosso mercado, se temos total capacidade e como já refinava até outro dia?
Hoje, algumas das nossas refinarias trabalham apenas com 50% da sua capacidade total e outras, com 70% apenas – com instalações técnicas e equipamentos modernos, com quadro de profissionais altamente preparados e com altos salários – e porque a Petrobras compra combustíveis das empresas estrangeiras concorrentes a preços globalizados, determinados pelo império mundial do petróleo, se temos nosso petróleo suficiente, extraído e refinado por nós mesmos? Porque manter a ociosidade tão elevada e cara das nossas refinarias? Tem mais, porque a Petrobras estabeleceu o preço do nosso combustível no mercado interno na cotação em dólar, se temos a nossa moeda? Porque a cada mês com a alta do dólar – quase R$4,00 – a Petrobras aumenta os combustíveis nos nossos postos de distribuição, quer dizer, de venda?
Agora, uma pergunta política ao nosso “iluminado por Deus” – que blasfêmia horrível Temer dizer a todos que está fazendo tudo “iluminado por Deus”, um sacrilégio público, uma demência – e ao seu Parente, que não aguentou as “auto-sabotagens” que aplicou na Petrobras sob seu comando e se danou, porque manter, em cargo de direção e de assessoria na Petrobras, gente das empresas concorrentes estrangeiras, no caso real, um técnico da Shell? Quem foi que inventou e instituiu esta “outo-sabotagem” na Petrobras? Essa trapaça é de hoje ou já vem de outros tempos?
Por gentileza, caros economistas sábios e políticos de plantão, respondam, falem, digam, pelo menos uma vez na vida de vocês, a verdade verdadeira.
Na verdade e sendo honestos, nós não queremos as respostas de vocês. Nós queremos, e com direito e justiça, que vocês mudem as políticas e os programas que vocês estão impondo ao Brasil e quase a todos os brasileiros. Vocês estão nos mandando as contas para pagar. Isso, sim, vocês sabem fazer bem, para vosso (de poucos) bem.
por João Wanderley Geraldi | jun 5, 2018 | Blog
Para um cronista que semanalmente escreve sobre a situação política, esta é uma terça-feira gorda! Tanto aconteceu deste a última terça-feira que fico rodando sobre que comentário fazer. Há alguns que são desnecessários, como a total desmoralização do Executivo comandado pela quadrilha do “Coisa”. Foi trapalhada atrás de trapalhada. E depois de acordar o que foi necessário para o país não parar, ninguém obedece: somente a rede BR reduziu por completo o valor do diesel – precisamente a estatal que querem vender… O Judiciário, o de sempre: o ativismo incontrolável desde a judicialização da política e a politização do judiciário que se tornou um partido com a força da autoridade a que nada se pode contrapor. O ativismo se tornou de tal monta que agora estão decidindo até a idade em que uma criança deve começar o ensino fundamental. Como especialistas de tudo e sobre todos, ministros togados se arvoram psicólogos, educadores da infância, psiquiatras e psicanalistas. E cagam jurisprudência sobre qualquer coisa obrigando seus “jurisdicionados” a cumprirem. Jurisdicionados é como gosta de chamar a população brasileira a D. Carmen Lúcia. E na casa da mãe–joana ninguém se ama, mas todos se entendem em nome da lei máxima que preside a dança: a colegialidade. Ah! ia esquecendo do chamado “poder” legislativo. Mas aprendi uma regra de boa civilidade: não se bate em gato morto.
Então fico mesmo com este paradoxo “mercadológico”, Pedro Parente, vezeiro no crime de lesa-pátria. Cantado em prosa e verso pelo mercado, espaço em que qualquer bafo derruba cotações, o simples fato da possibilidade de vir a dirigir a BRF, a gigante da área alimentícia, suas ações subiram imediatamente. Como ele mesmo afirma e canta que seu compromisso é “com os acionistas”, os que detêm a maioria das ações que se cuidem… porque com este mesmo pensamento ele esqueceu por completo, quando na Petrobrás, quem detinha a maioria das suas ações! Assim, se houver um e somente um acionista que seja estrangeiro, ele dirigirá a BRF de olho e no interesse deste único acionista, porque o seu negócio é o “mercado”…
Ele protege ferrenhamente o “mercado” quando em cargos públicos. Esteve no Banco Central quando da hiperinflação do governo Sarney; foi ministro da fazenda de Collor no confisco das poupanças e dos saldos em conta-corrente; esteve no FMI quando o país sentou no pinico de pires na mão pedindo empréstimos depois que foi quebrado pela “eficiência” na condução liberal e neoliberal da economia; foi ministro de minas e energia durante o apagão de FHC, que ocorre, é óbvio, depois da privataria. O apagão enriqueceu as distribuidoras de energia e ainda assim, passada a crise, todos tivemos que pagar para o fundo de compensação dos “lucros cessantes” destas mesmas empresas! Afinal, uma das características da privataria tucana era essa: quem recebesse o bem público não poderia ter qualquer prejuízo, porque o capitalismo não pode ter riscos. Perdendo, divide-se o rombo com a população; ganhando, os lucros são somente deles… E isso é global, lembremos o rio de dinheiro público que levaram bancos e empresas na crise que eles mesmos criaram em 2007/2008.
Ora, como não defender um homem com tamanha eficiência? Foi em sua defesa que saíram, em voz uníssona, as leitoas da Rede Globo de todos os matizes e de todas as raças. Grunhiam: a Petrobrás perdeu tantos milhões de valor com a saída de amado de sua presidência… a Petrobrás não perdeu coisíssima nenhuma!!! No jogo dos valores das ações, a empresa nada ganha e nada perde. Se sobe o valor das ações e o dono vende, quem ganha é o dono das ações; se desce e ele vende, quem perde é o dono das ações. Nenhum centavo entra ou sai do caixa da Petrobrás, de modo que dizer “a Petrobrás perdeu…” é para enganar trouxa. Eles dirão que é óbvio: perdeu valor de mercado! E o que o valor de mercado tem a ver com o valor real de qualquer empresa? Ao não explicitarem o funcionamento do mercado de ações, para a patuleia fica a informação: a Petrobrás perdeu… e é no que leitoas e leitões, chafurdando no lodo e ganhando muito, querem que acreditemos.
Pedro Parente já vai tarde… e sonhemos todos: que nunca mais volte a ocupar cargo público, porque se ocupar, usemos todos cuecas e calcinhas de aço que ele virá para nos arrasar… e ele mesmo dando tudo para o seu querido mercado.
por João Wanderley Geraldi | jun 3, 2018 | Blog
SABEDORIA
Não sejamos muito exigentes:
nem sempre a Sorte é acessível
a todo o mundo, a toda gente.
Ela é só dos menos sensíveis,
ou dos ricos, naturalmente…
Não desejemos o impossível.
Devemos estar contentes
de ser quem somos: simplesmente
namorados intermitentes
loucamente se namorando
de vez em quando.
É já uma grande cousa a gente
ser dois, à parte, entre os mortais,
dois que se bastam mutuamente
e não se aborrecem demais.
E se somos mais exigentes,
se às vezes a alma ainda se sente
solteira e triste, isso é explicável:
temos um gênio insuportável…
ou somos muito inteligentes.
(Paul Géraldy. Eu e você. Tradução de Guilherme de Almeida. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1964)
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