Cassetetes e bombas no campus da USP

Um dos pilares da vida acadêmica e da pesquisa científica é a liberdade de pesquisa e de crítica. Esta liberdade não se restringe ao mundo dos laboratórios e às bibliotecas, às entrevistas e às intervenções, segundo o modelo de pesquisa adotado. Esta liberdade inclui a livre manifestação a propósito da organização da própria vida no interior do campus.

Lembro que o primeiro reitor da UNICAMP, Zeferino Vaz, quando foi preso, durante a ditadura militar, um professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, o Prof. Gebara, o reitor se dirigiu imediatamente ao DOI-CODI em São Paulo e somente saiu de lá acompanhado do professor. Atribui-se a ele a frase “Dos meus comunistas, cuido eu!”. Verdadeira ou não a frase, a verdade é que o Prof. Gebara foi solto e voltou para a Universidade, nos tempos em que ser preso poderia significar sem retorno.

Uma das garantias que se conquistou durante este período truculento da história do Brasil foi a praticamente impossibilidade de a polícia entrar no campus! Havia nos campi universitários mais liberdade do que em outros espaços. Nenhuma universidade desapareceu por causa disso. Ao contrário, onde a liberdade era maior, nas três universidades estaduais paulistas, maior foi o prestígio que estas universidades foram adquirindo aqui e fora do país por suas pesquisas. Elas concentram grande parte da pesquisa brasileira.

Pois não é que o Reitor Zago se tornou um “chamador da polícia de choque” para o campus da USP? Uma proposta de gestão da crise econômico-financeira da Universidade que produzirá exonerações e redução no quadro de professores e funcionários ia ser debatida e votada no Conselho Universitário. A reitoria determinou o “cerco” do prédio, tornando o acesso à sala de reuniões quase impossível.

Estudantes, funcionários e professores, seguindo a tradição universitária, organizaram sua manifestação pacífica. Nenhuma pedra atirada contra os policiais; nenhuma pluma, mas mesmo assim a violência da polícia não deixou de aparecer! Estudantes e funcionários espancados; alguns presos por “desacato”, o tal crime que depende do julgamento do soldado da polícia: basta ele achar que estão olhando para ele com ares de desafio, que o crime já está cometido. Parece que os policiais têm um medo danado!!! Cagam-se de medo, e inventaram isso de desacato para usarem a força à vontade, porque são eles que definem o que é desacato.

Foi o que aconteceu lamentavelmente na USP no dia 07 de março, um dia que entrará para a história da universidade. Da USP e das universidades brasileiras. A polícia se adonou dos campi universitários com sua truculência.

No regime que se instala entre nós, que tenho chamado de jurídico-policial-midiático, tudo se torna crime e sem que haja possibilidade de recorrer a qualquer instituição. A justiça se mostra cada vez mais parcial, seletiva, e condenadora antes mesmo da investigação. A polícia – ao contrário dos militares que são treinados para a defesa – é treinada para prender, para bater, para matar. Um regime em que o estamento judiciário se une ao policial, toda a cidadania se vai! E mesmo espaços sagrados como o da universidade deixaram de garantir a dignidade da liberdade de expressar críticas. Nem milicos, nem juízes gostam de críticas. A mídia elogia: disto gostam porque se sentem deuses do Olimpo nas telas das tevês…  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.