É verdade que não sei bem se a palavra cantilena existe, mas como tenho registros de ouvi-la desde sempre, assumo que possa usar sem medos vorazes, e até desavergonhadamente. Para tal, explico que sempre que eu retomava um assunto, por insistência ou esquecimento de já ter contado algo que tivesse me causado estranheza ou surpresa, ou que merecesse destaques infindáveis a cada novo interlocutor, ouvia que lá vinha eu de novo com a minha cantilena.
Hoje usam mantra, mas não para todas as pessoas apenas para aqueles que repetem o discurso que se quer ouvir a exaustão.
Saibam que falo de mim antes para esconder o caso originário de registro do termo na minha memória de infância. Não é caso literário, embora eu saiba que tem muita tristeza na literatura.
Existiu uma mulher em uma determinada casa, que ficava nos arredores dos cafundós de Goiás, cujas as palavras eram sussurros tão baixos que pareciam notas musicais, tais notas sempre se repetiam: no passar o café, no ariar fervorosamente às vasilhas, no lavar a roupa nas pequenas mãos, no ajeitar do coque dos cabelos, no carinho-cafuné que alcançava os muitos netos e netas e na solidão da falta dos filhos. Reduzia-se tanto que os diminutivos estavam em todas as frases, e então repetia, e repetia e ainda outra vez uma espécie de música ou reza. Até que o desinteresse a rotulasse de lengalenga, ou cantilena. Com o passar do tempo, de tanto não ser ouvida, de silêncios preenchida, se tornaria perdida, sem direção ou sentido. Não entendia sempre, às vezes quando doía, entendia menos.
Então pelos cantos, e sem afeto que valha, muitos diziam-lhe louca, quando era silêncio e ausência seu cantar.Lembrar de vó é sempre bom, mesmo quando as imagens e saudades vem distorcidas pelo que no agora se reconhece machismo.
Essa história retorna aqui para me anunciar um padrão. Sei que posso enlouquecer de tanto falar, mas não falar também enlouquece por dentro.
É estranho que as pessoas gostem de ouvir pessoas e gentes interessantes, como se os interesses não fosse hierarquizados pela ideologias, e pela hegemonias da sociedade, mas assim que ouvem uma história de subalternos, marginalizados e excluídos, acham repetitivo, cansativo mesmo. Assim, comportam-se para diminuir tais textos: escritos, falados, registrados ou não, e vão diminuindo espaços e lugares de fala, ate que só alguns possam falar com propriedade, é isso afinal: propriedade. Avançam sobre as primeiras linhas e histórias, e estrategicamente em alguns momentos inclusive assumem que podem falar pelo outro, “são solidários”.
Ladrões de vozes, ou eufemisticamente produtores de silêncios e silenciamentos. Pessoas que vestidos de variadas intenções, e nem sempre são boas (em geral não são) assumem o controle das narrativas de forma que possam evitar inconvenientes, tal qual prevê o provérbio africano:
Até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.
Embora, talvez seja melhor para os leões continuar, ora sim ora não, devorando seus caçadores e assumindo a narrativa de uma outra perspectiva, para contar a história é preciso sobreviver. Muitas vezes em silêncio. Sobreviver e escrever tem a mesma função: reagir aos infortúnios de ser caçado dia após dia, sacrificados, expostos em pedaços, destruídos, e assassinados.
Estão nos matando. Negros, mulheres, crianças, povos nativos e lgbts. Florestas e mares. Silenciosamente espreitamos, chegou ao fim nossa cantilena. Eis que chega a hora em que mais do que rugir é preciso reagir.
Professora, militante, escritora
Mara Emília Gomes Gonçalves é formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Gestora escolar, professora, militante, feminista, negra. Excelente leitora, escritora irregular. Acompanhe-a também em seu blog: LEITURAS POSSÍVEIS.
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