Os golpistas estão brigando entre si. Enquanto o que Luís Nassif chamou de “camarilha do poder” busca construir bases de apoio entre políticos e, através deles, de parte da população, aumentando a popularidade do chefe político do golpe, o grupo neoliberal, de carteirinha assinada e desatualizado porque até o FMI não acredita na receita econômica que já pregou e que os colonizados neoliberais continuam querendo aplicar estão decepcionados com a demora no remédio da desejada rescessão e achatamento da renda do trabalho.
Henrique Meirelles, que pertence ao grupo dos neoliberais e representa os interesses maiores dos rentistas, tem que se equilibrar entre um e outro grupo. Afinal, quem tem a caneta das nomeações é o chefe da quadrilha do Planalto. E ele é ministro demissível e está tendo que trabalhar com os pacotes de bondades que o PSDB rejeita porque tem pressa em aplicar o arrocho do ajuste fiscal.
Assim, as negociações sobre os 50 bi das dívidas dos estados seguindo o modelo do ajuste, exigia inicialmente uma lei federal draconiana sobre a política dos estados: nenhum aumento de despesas com pessoal; incluir entre estas despesas aquelas pagas a terceirizados; proibição de novas contratações, etc.
Acontece que os deputados não são somente membros do PSDB. Oscilam entre os interesses rentistas e os interesses mais imediatos e óbvios de seus estados. Uma lei federal impõe o ajuste para todos os estados. Então a negociação que Meirelles conduziu foi a de retirar as maldades da proposta original e transferir sua aprovação às Assembleias Estaduais, já que os acordos a serem assinados contêm a cláusula do que não passou pelo Congresso. E então os governadores terão que cumprir o acordado.
Um grande engano do PSDB sair criticando Henirque Meirelles. É a pressa neoliberal que não consegue pensar. E é esperado, com lideranças grosseiras como as de Aécio, Aloysio Nunes e José Serra. Meirelles foi extremamente ardiloso: em vez de enfrentar nacionalmente as reações aos ajustes nos estados, diluiu estas reações aos respectivos estados que aplicarão o ajuste de forma diversificada e em datas diversificadas. Anula-se a forte oposição ao programa neoliberal para dilui-la de estado em estado.
E assim os pacotes das bondades, patrocinados pelos desejos recônditos de reconhecimento popular de uma quadrilha que se apressou em assumir o poder para obterem as vantagens dos cargos e não serem processados (Michel Temer não poderá ser investigado sobre a delação da Odebrecht enquanto estiver na presidência porque nela só pode ser investigado por crimes cometidos no exercício da função). Os outros estão lá porque seu projeto é “estancar a sangria” como já disse um dos cinco membros da quadrilha, Romero Jucá. Mas isso mesmo havendo uma gravação feita por Sérgio Machado, não é tentiva de obstrução da justiça no entender sábio da parte jurídica do grupo neoliberal, representada condignamente por Rodrigo Janot e Gilmar Mentes. Sérgio Moro é apenas instrumentos destes.
O pacote das maldades já estão em execução. Primeiro vender tudo, e as vendas e seus lucros recônditos já começaram. A maldade contra o patrimônio nacional não eleva a temperatura da oposição. Afinal, até o governo de Dilma era a favor da venda do pré-sal. Na previdência, o pacote está em vigor com a gratificação dada a todo médico do sistema que suspender qualquer licença saúde! Não importa a saúde, importa economizar recursos.
O pacote das maldades está indo a conta-gotas. Isto não é bom para os compromissos assumidos internacionalmente pela quadrilha neoliberal. Por isso o fogo “amigo” contra Meirelles!!! Um fogo da burrice e da pressa. O cara está agindo bem como eles querem, mas eles sempre quererão mais e com rapidez. Note-se, por exemplo, a rapidez das decisões de Gilmar Mentes: encontra-se com a cúpula do PSDB e no dia seguinte determina investigações para cancelar o registro do PT! Claro que ele não está hoje com pressa de decidir aquele processo que ficará em suas mãos por alguns anos: o pedido de cassação da chapa Dilma/Temer. Para cumprir esta missão sem prejuízos à camarilha do Planalto, terá que rebolar argumentos jurídicos inexistentes.
E assim estamos indo: com bondades falsas para maldades diluídas.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

Comentários