Banqueiro e pastor: as profissões com futuro

Quando descobriram um Brasil, um cronista da época, Pero Vaz de Caminha escreveu a El-Rey que aqui, em se plantando tudo dá. Mas o futuro da terra, hoje nosso presente, acaba desmentindo o missivista! Aqui, para plantar é preciso se submeter ao cartel da produção de sementes… e quando a colheita vem, que aufere os resultados são os bancos que financiaram a lavoura! Ganham muito mais do que qualquer agronegócio, por mais rentável que possa ser.

Assim, aquilo que foi a vocação profetizada na carta de Caminha – uma nação cujo futuro seria ofertar a preços de banana a matéria prima e os alimentos para desenvolvimento antes da Metrópole que devia tudo a Inglaterra, e hoje para a sede do império contemporâneo – felizmente um império em derrocada.

Resta então o quê? Que pode aspirar ser a juventude de hoje? O que mais cresce em nossos tempos?

Penso que só há, no Brasil, duas profissões com futuro: ser banqueiro ou ser pastor de uma igreja pentecostal, qualquer que seja o nome que assuma.

Como ser banqueiro está longe do horizonte, é preciso ter nascido filho de banqueiro para continuar a obra de rapina praticada pelos pais, sobre mesmo é ser pastor! Afinal, cada uma destas profissões tem seu deus: os banqueiros tem um deus que se chama “dividendos” ou “lucros”; os pastores pregam o evangelho e sua crença é da área imaterial da metafísica. Outro Deus, vingativo por certo, porque é o Deus do Antigo Testamento que se apresenta em cada Igreja.

Mas ambas as profissões sobrevivem da necessidade do próximo. Os banqueiros adoram um sujeito com patrimônio sem capital de giro – é a chance para emprestar e retirar-lhe primeiro os lucros, depois a própria propriedade. Os segundos oferecem a preços módicos, com nome de óbulos ou oferendas, ora uma cura, ora um emprego, ora a venda vantajosa do carro, ora uma chance feliz de comprar uma casa, tudo ao gosto do freguês. E ainda como prêmio, a oferta de uma vida futura e incorporal num céu de beatitudes.

Esta reflexão é fruto de uma constatação. Hoje fui ao centro da pequena São Sebastião, uma cidade do litoral norte paulista cuja economia gira em torno de dois eixos: o terminal marítimo da Petrobrás e o turismo. Pois nesta pequena cidade há duas agências do Bradesco; duas agências do Banco Itaú; duas agências do Banco do Brasil e uma agência da Caixa Econômica Federal. É muito banco em pouco espaço!!! E igrejas, há-as por todos os lados com diferentes nomes e diferentes tamanhos.

Por isso, é preciso pensar no futuro. É preciso pensar ou sonhar em ser banqueiro ou pastor. Talvez tenha esquecido apenas outra profissão altamente vantajosa, e que novamente explora o sofrimento e necessidade alheios: ser dono de farmácia!!! As farmácias fazem promoções em que há descontos que vão até 90% sobre o valor de venda!!! Uma promoção que dá desconto de 70, 80 ou 90% de desconto desvela apenas que os preços são roubalheiras descaradas. E neste caso, como em todos os outros, cabe ao “mercado” regular tudo, que o Estado deve se ausentar o mais possível para que os lucros e a miséria subam de patamar. E subindo, enchem as igrejas de pessoas que buscam milagres porque a vida está de amargar. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.