‘BANDIDO’, O TERMO MAIS CORRENTE DA POLÍTICA DE HOJE

Depois dos elogios aos relevantes serviços prestados por Romero Jucá – o que inclui a construção de uma presidência interina e logo, logo definitiva (é preciso encontrar eufemismos para se referir ao ‘golpe’ porque a ministra Rosa Weber poderá pedir explicações em prazo de 10 dias pelo uso da palavra) – o presidente em exercício Michel Temer, o Temerbroso, recupera a memória do país: ele foi Secretário de Segurança do Estado de São Paulo. E como secretário, sabe lidar com bandidos!!! “Fui secretário de Segurança em São Paulo por duas vezes e tratava com bandidos. Eu sei o que fazer no governo e saberei conduzir”… Como uma das coisas que ele acabara de fazer (e ele sabe o que fazer) foi demitir Romero Jucá, somando dois com dois teremos quatro mais um: o dito e o implicitado. E o implicitado é que o dito cujo chamou o dito cujo outro de bandido. Nas palavras do presidente em exercício, seu ex-ministro, o ministro-cometa que a gente só vê de passagem, é bandido.

Pois a palavra retorna do bate-boca típico do parlamento brasileiro. Lá, alguns partidos se mobilizaram para entrar com representação na Procuradoria Geral da República e no Conselho de Ética do Senado, pedindo investigação e cassação do mandato do amiguinho do presidente em exercício. Que responde o amiguinho? “Qualquer representação é legítima. Agora, se nós formos ver os autores, um dos autores é um bandido, que a mulher está sendo presa hoje, provavelmente, o senador Telmário Mota, proque roubou dinheiro na Assembleia Legislativa para sustentá-lo”. Telmário responde que Jucá “vive na bandidagem e acha que todo mundo é bandido igual a ele”. Sobre o companheiro de ontem na ‘construção de uma presidência interina, logo, logo definitiva’ Carlos Lupi, presidente do PDT, Jucá afirma que ele sequer merece o termo bandido, já que a um chama de bandido e sobre o outro diz que “não merece nenhyum tipo de comentário”. Para qualquer falante da língua portuguesa, “não merecer comentário” é pior do que merecer o comentário de bandido. Todos sabemos o sentido de “não me pergunte a minha opinião, porque posso dá-la”. 

E de bandido em bandido vamos vivendo: virou banditismo, sob o rótulo de “crime de responsabilidade” as chamadas pedaladas fiscais, isto é, o acerto de contas feito com um banco que foi fazendo pagamentos durante o mês e apresentou a conta no começo do mês seguinte e recebeu o que lhe era devido. Antes não era banditismo (não vou usar o belo neologismo de Romero Jucá, bandidagem, uma criação que não é sua mas do povo, aquele que elegeu a Dilma e de quem ele roubou os votos) e foi praticado por FHC, o limpinho Farol Apagado de Alexandria, e por Lula e por Dilma em anos anteriores. Só virou coisa de bandido sob encomenda ao obscuro ex-deputado Nardes realizada pelo grupo da ‘construção de uma etc etc…’ de que Serra e Jucá foram próceres, líderes, articuladores ou o que seja (só não pode dizer ‘golpistas’). Lembrem-se, Aécio queria serviços de cassação do Gilmar Mentes; Alkmin queria sangria por todo o mandato de Dilma. Serra, dentre os limpinhos, é que queria os serviços de Nardes, pois era a chance de ele retornar ao executivo para vender, vender, vender que é o que sabe fazer.

Mas “não para por aí o horror” (um verso de Vitor Hugo, em tradução de Castro Alves no poema a propósito de Jesus Cristo, verso dito pela boca de uma escriba do Templo). Temos um líder do governo na Câmara dos Deputados que é tratado como bandido. Temos muito atuante e nomeador de apaniguados em posições estratégicas dentro do governo, o reconhecido bandido Eduardo Cunha. Logo a expressão atingirá o ministro do Turismo Henrique Alves, e seguirá por aí. A conferir.

Em falando em bandidos, não podemos esquecer o juiz Sérgio Moro, que trabalha tanto o coitado para por bandidos já preventivamente na cadeia, mesmo sem julgamento. Também gosta de trazer para depor coercitivamente. Em evento público, numa resposta uníssona ao revelado pela conversa gravada entre Sérgio Machado e Romero Jucá, segredo de polichinelo pois todos sabíamos disso, de que o pagamento aos votos favoráveis ao afastamento de Dilma seria encerrar a Lava Jato. Pois Sérgio Moro, antes do afastamento, já dava estes sinais de garantia aos parlamentares, ao dizer que era seu desejo encerrar a investigação em dezembro deste ano. E agora voltou à carga: ao mesmo tempo que nega a interveniência do Executivo no Judiciário, afirma imediatamente a naturalidade investigatória-policial-jurídica de que a Lava Jato vai perdendo “impulso” como toda investigação. Há recados de tranquilidade aos parlamentares nesta afirmação. A Lava Jato não vai ser encerrada. Vai perder “impulso” porque já atingiu seus objetivos. Claro, não sem antes pegar algum boi de piranha – Aécio é o mais indicado, para gáudio do coveiro mor José Serra. Não antes de prender, haja ou não provas de crime, Lula e Dilma. 

Não me passou desapercebido o telefonema de Aécio a Serra, assim que tornada pública a conversa Jucá/Machado: Aécio pedia a Serra que ficasse sempre de seu lado. Ora, ora… quem tem memória sabe: Serra mandou publicar o “pó de parar governador” quando Aécio queria prévias no PSDB; e Serra é conhecidíssimo como elaborador de dossiês. Onde há Serra, há dossiês. Principalmente como ‘fogo amigo”. Mas não acredito que haja dedinho de Serra, o que sempre quis um ministério na área econômica, nesta derrubada do Jucá! Ele só quer o lugar. Ele não costuma ser um  trator que vai derrubando tudo o que tem pela frente como obstáculo a seus desígnios. Ele é diplomata, como se sabe. E religiosíssimo, de comungar em campanhas eleitorais. Não cometeria um pecado de avareza tal.     

 

 

 

 

 

 

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.