Os tempos temerbrosos que já estão na praça, à disposição de qualquer um, sem vazamentos seletivos – isto é uma especialidade da república de Curitiba – anunciam muito balão de ensaio e jogo de cena. Isso enquanto o golpe dentro do golpe não chega. Por enquanto, temos o golpe parlamentar desde sempre orientado pelo juridismo da Procuradoria e pela ação policial dos delegados do comitê de campanha do Aécio Neves. Por sinal, o advogado que recuperou as mensagens no Face de campanha para Aécio feita pela força tarefa (uma junção juridicamente estranha, em que se reúnem no mesmo grupo a investigação, a acusação e o julgamento) foi indiciado pelos mesmos delegados por qualquer coisa como ‘desrespeito’ ao Superintendente da Polícia Federal daquela república.
Pois por enquanto temos o jogo de cena do juridismo policial, que já inclui a proibição de tratar de certos temas – como mostrou a juíza de Belo Horizonte proibindo os estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais de discutir publicamente o processo de impeachment – depois da proibição de temas, virá a proibição de grupos e de pessoas – como foi proibido escrever na imprensa que existia o grupo do MDB Autêntico na época dos militares e como foi proibida qualquer menção ao nome do Cardeal Hélder Câmara ; depois virá a repressão psicológica das aposentadorias compulsórias, dos desterros, dos exílios e concomitante a esta vira a violência física.
Enquanto estes “depois” não chegam, o que temos são balões de ensaio e jogos de cena. Tomemos três exemplos dos últimos três dias:
A ciência sob o domínio da religião
Só pode ser balão de ensaio a indicação do Temerbroso de um bispo evangélico – Marcos Pereira, presidente do PRB, ligado a Edir Macedo – para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Foi uma luta muito grande, que adentrou a modernidade, a separação das questões de fé das questões científicas. Note-se que Giordano Bruno foi para a fogueira no Campo das Flores em Roma em 1600; que Galileu Galilei foi condenado pelo Santo Ofício nos princípios do Séc. XVII, que a teoria de Darwin era proibida de ser ensinada até meados do Séc. XIX. Pois o balão de ensaio pretende verificar se estamos todos aptos a este retrocesso de colocar a ciência e a tecnologia sob o amparo das concepções evangélicas. A religião voltaria assim a comandar através de suas comissões a definição do que pesquisar e do que se pode dizer. Ou é brincadeira, ou efetivamente o retrocesso será de séculos! É balão de ensaio, sem dúvida porque sequer o Temerbroso pensa em voltarmos aos métodos da Idade Média e dos começos da Modernidade, quando já estamos construindo a passagem de era neste Séc. XXI.
As críticas de Aécio, presidente do PSDB
Eis que Aécio, do alto de sua presidência partidária, faz críticas ao futuro governo. Reúne-se a cúpula dos empenados de bico longo para estabelecer um conjunto de ‘princípios’ que o Temerbroso deveria assinar e com os quais deve se comprometer. Do contrário, o partido não dará apoio ao novel governo. Não é por causa de sua ilegitimidade, a sua falta de votos: é porque os tucanos querem mandar em tudo sem se responsabilizarem pela impopularidade das medidas e pelo insucesso que elas seguramente trarão, como estão trazendo para a Espanha, para Portugal, para a Grécia… O receituário neoliberal já está sendo revisado até mesmo na matriz a que os tucanos prestam serviços. Mas enquanto este jogo de cena se desenrola, negociam-se cargos no governo, alguns imediatamente visíveis: Ministério das Cidades, para ficar com os programas da área urbana; o Itamaraty para mudar sua função de diplomacia para venda direta do que sobrou a ser privatizado para o capital externo, sem esquecer que alguma coisa deve ficar nos bolsos brasileiros; a Advocacia Geral da União para manter a ideia concreta do juridismo. Não lhes interessa a Procuradoria Geral da República, porque já ocupam o cargo e este tem mandato. Quando Janot quiser cair fora – afinal já terá cumprido seu papel – outro procurador será indicado e terá a cara tucana para que os engavetamentos que então se tornarão extremamente necessários venham a acontecer para a tranquilidade política do país.
A denúncia de segunda prepara a denúncia de terça-feira
Pasmem! Na segunda-feira o Procurador Janot denuncia Aécio Neves no STF. Mais um jogo de cena para dizer que as investigações são apartidárias. Como no passado, o mesmo procurador engavetou outras denúncias contra o senador tucano, agora depois de muito procurar, encontrou indícios para a denúncia ao STF. Provavelmente com indícios suficientemente fracos para que o jogo de cena funcione. Com o tempo, o STF – aprovado o aumento de salários – dirá depois de alguns anos que os indícios não autorizam a investigação. Mas o jogo de cena se prestou para preparar a denúncia de terça-feira, particularmente a denúncia de Lula. Afinal, segundo as palavras do grande procurador geral “Essa organização criminosa jamais poderia ter funcionado pro tantos anos e de uma forma tão ampla e agressiva sem Lula”. Este é um indício juridicamente de extrema clareza legal. Aqui vale o princípio do ‘domínio do fato’, que não vale para outros chefes, governadores ou não. Quer dizer, há de valer para governadores petistas, pois o princípio somente tem aplicação quando se refere a membros deste partido. Cumprida esta tarefa, lá vai o procurador procurar crimes de Dilma, mas isentando Michel Temer… Não é de rir não, é de chorar! Janot sabe: rei deposto, rei posto. E a postura parlamentar do Temerbroso o isenta do que fez no passado: ele é inocente até de pecado original porque este cairá sobre o parlamento.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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