Balança comercial: déficit e superavit

A balança comercial com o exterior teve superavit. A notícia pode ser boa, mas passei a desconfiar desta balança desde que ouvi um juiz nordestino no Congresso Internacional de Direitos Linguísticos em Lisboa. O magistrado defendia o uso de uma linguagem comum entre autoridades alfandegárias do mundo, não só considerando denominações de mercadorias, mas também seus valores declarados.

Exemplificava o juiz como uma operação de vendas de sapatos brasileiros para o exterior ao valor de 0,01 de dólar, preço absolutamente falso. A diferença entre o valor oficial e o valor real da venda é pago pela importadora diretamente em paraísos fiscais! É pior: o fisco aponta a sonegação (outro modo de ser corrupto), a empresa exportadora recorre, e enquanto tudo tramita, a mercadoria já foi embarcada é até mesmo entegue, sem qualquer apreensão, que para isso existem advogados para liberarem imediatamente a fim de não prejudicar o comércio exterior brasileiro.

Assim é difícil conseguir superavit. E, sempre que surge, fico imaginando que uma nova ética está emergindo nos negócios!!! Tenho certeza que não é verdade que resulta da diminuição das compras… Afinal, sonegar não é crime para os defensores da ética na política, que se associam com facilidade ao golpismo hoje em franca e explícita gestação.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.