AUTORIZAÇÃO DE TORTURA CONTRA JOVENS E ADOLESCENTES

Felizmente a insanidade não é total: uma juíza de bom senso cassou a autorização judicial dada por outro juiz, da Vara da Infância e da Adolescência, para a polícia usar a tortura para desocupar escolas. Autorizava o juiz o corte do fornecimento de energia elétrica, de água; proibia a entrada de alimentos e, pasmem!, também autorizava usar o barulho para não deixar os jovens e adolescentes dormirem.

A razão para isso é que a expressão do pensamento de repúdio à reforma do ensino e à medida do teto que congelará investimentos na educação e na saúde pode ser realizada em outros espaços. Assim, a ocupação das escolas seria um “crime”  ser coibido judicialmente pelo emprego da tortura.  

Realmente o juiz tem toda razão: a liberdade de expressão do pensamento, uma conquista da humanidade incluída na Declaração dos Direitos Humanos pode ser exercida em quaisquer espaços, particularmente onde a expressão não seja ouvida, onde não chame a atenção, onde não estorve a ordem e progresso instaurados pelo regime jurídico-policial em que estamos vivendo. Em contextos desta ordem, a expressão terá maior efeito prático para o regime, ou seja, efeito nenhum.

Depois de uma decisão deste feitio, deste mau feitio, para que uma “escola sem partido”? Um programa totalmente desnecessário, porque havendo um judiciário com partido, o resto automaticamente será sem partido: a eterna vigilância de juízes, procuradores, promotores, delegados e policiais garantirá, mesmo que seja com o emprego da tortura como esta que foi autorizada, o bom pensamento, o pensamento “verdadeiro”, sem ideologias alienígenas como se costuma dizer na época da ditadura militar.

Ao mesmo tempo decisões judiciais desta ordem, não encontrando quem as casse, produzem o efeito desejado: intimidar a juventude; torná-la dócil e devidamente orientada para se comportar com um rebanho submisso.  Assim, o futuro como repetição do passado estará garantido.  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.