Atiram no frango e esfrangalharam o governo

O Brasil tinha se tornado o maior exportador de carnes de frango do mundo. Obviamente isso não estava agradando a matriz e os frigoríficos norte-americanos. Então se deflagrou uma operação que saiu às ruas dizendo que a carne que comíamos era podre (sem apresentar qualquer, mas qualquer análise química dos produtos). Bom, isso levou as empresas do setor à beira da falência, com a suspensão das compras internacionais. 

Claro que as empresas que fizeram o país dar este salto não são boazinhas: são capitalistas. E foram financiadas pelo banco oficial (BNDES). Tratava-se de uma política pública dos governos petistas: entrar no mercado internacional.

Bom, com a operação “carne podre”, os empresários deixaram de ter acesso a financiamentos, tiveram que fechar frigoríficos, etc. O conglomerado JBS começa a transitar pelo governo pedindo ajuda, dando propinas, etc… E claro, voluntariamente foram ao Ministério Público e se ofereceram para gravarem as conversas sobre estes assuntos… e gravaram o presidente, senadores, deputados, etc. etc… 

Na sequência dos fatos políticos midiáticos tivemos: a) o depoimento do Lula que mostrou que delegados, procuradores e juiz não tinham qualquer prova pra condenar o Lula, foi um fiasco; b) imediatamente, o ministro do STF levantou o sigilo da denúncia dos marqueteiros das campanhas de Lula e Dilma que apresentaram uma “prova” contra Dilma, a existência de um endereço de email e uma mensagem sem data e não enviada, que segundo a delação e a imprensa era de Dilma. Acontece que hoje a tecnologia permite verificar estas coisas e imediatamente se descobriu que o endereço aberto em nome da Dilma e o rascunho de email atribuído a ela tinha sido aberta a conta e escrita a mensagem um dia depois da prisão da Mônica Moura. Mais um fiasco nas “provas” contra Lula e Dilma; c) a ditadura que vivemos, judicial-midiática, estava sendo posta na parede. Então veio a bomba: divulgaram as gravações da empresa de exportação de frangos, atingindo o núcleo do poder executivo e legislativo golpista.

Com isso conseguiram dois feitos: amedrontar os aliados no golpe e mostrar à opinião pública que não há perseguição ao PT! Que suas ações são equilibradas e justas. Que no correr do tempo também serão condenados políticos não petistas (por enquanto, apenas Eduardo Cunha, cuja boca está entulhada pelas mensalidades propinosas da JBS sob as bênçãos do presidente da república). Assim, abrem o espaço político para a condenação de Lula que virá em junho e será confirmada pelo Tribunal Regional de Porto Alegre, de modo que ele será encarcerado ainda em junho ou julho, perdendo a condição de se candidatar à presidência em 2018.

Enfim, trata-se de um jogo: todos sabem que, com o golpe, o Executivo foi assumido por uma quadrilha; todos sabem que os políticos todos recebem financiamentos de empresas e defendem seus interesses. Ora, quando a luta pelo poder entra em cena, o judiciário aliado à mídia ficou com a espada de Dâmocles na mão. Ou o Executivo e o Legislativo fazem o que eles determinam (por exemplo, bloquear a lei sobre abuso de autoridade, não incluir os servidos da justiça na Reforma da Previdência, aumentar vertiginosamente os vencimentos do judiciário, tanto pelos 41% negociados durante o impeachment de Dilma quanto pelos perduricalhos que vão sendo justificados pelos próprios juízes, como receber acima do teto ou receber auxílio moradia) ou o sistema judicial-midiático torna públicas suas investigações, mas sempre mantendo coisas em sigilo, isto é, nunca perdendo o poder da ameaça  velada. 

Dentro desse sistema há uma luta intestina de poder: o juiz Sérgio Moro, o procurador geral e seu grupo (que estão diretamente vinculados ao Departamento de Estado norte-americano) e o grupo de ministros do STF vinculados ao PSDB, o partido de FHC, de Aécio, enfim o partido do neoliberalismo radical, explicitamente vinculados ao capitalismo financeiro. Sob a batuta de Gilmar, Mentes, eles hoje formam a maioria na Suprema Corte, mas o processo contra a corrupção, apelidado de Lava Jato, está na mão de um ministro-relator que vem de Curitiba e claramente vinculado ao primeiro grupo.  Assim, o levantamento do sigilo das gravações feitas sob orientação e supervisão deste ministro tem a ver com esta luta intestina de poder. O PSDB foi para o brejo. Não tem recuperação política possível, junto com o PT.

Sobra o prestígio pessoal de Lula, mas eles vão conseguir prendê-lo. Agora ainda podem dizer: não estamos perseguindo somente o PT, também vão para a cadeia o pessoal do PSDB e do PMDB (que são aliados políticos). 

Ganha o sistema jurídico-midiático, sob o comando do grupo do MPF. Eles indicarão o próximo presidente da república que será eleito indiretamente por um Congresso amedrontado pelas ameaças judiciais…

A queda de Temer levará à eleição indireta. Embora a imprensa especule a possibilidade de Sérigo Moro vir a ser eleito – provavelmente com uma mudança na Constituição que lhe daria um mandato mais longo e o dispensaria das condições de elegibilidade previstas em lei. Mas isso me parece apenas um balão de ensaio. Entre os dois grupos em luta pelo poder, encontrarão um tertius (Nélson Jobim, ex-ministro de FHC e de Lula? Carmen Lúcia, presidenta do STF? O próprio FHC que está sempre disposto a aparecer como estadista apartidário?). Eles não podem quebrar o próprio sistema que estão construindo: o da ditadura jurídico-midiática, com forte aparato policial.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.