Aécio anda mais solto. Até entrevistas voltou a dar, anda falante! Depois do curto espaço de recolhimento, quando fatos desinteressantes vieram à tona, agora está satisfeito. Três movimentos o fizeram sair da toca: primeiro, a articulação para considerar o caixa 2 de campanhas eleitorais como quase não crimes com a pena do tipo “aprovação das contas com restrições”. Gilmar Mentes está assessorando as formas jurídicas e os verbos necessários para dar conta do recado. Afinal, ele é o presidente do TSE. Em segundo lugar, a definição de Rodrigo Janot, nosso procurador geral, isto é, aquele que procura desesperadamente um crime para Lula, de que as delações premiadas de Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro (OAS) indicarão somente valores relativos a pagamentos para o caixa 2 de campanhas. Outras delações não serão feitas. Aquele depósito no exterior de 23 milhões para o José Serra ficará esquecido ou entrará na quota do caixa 2 da campanha do presidente em sonhos do Brasil. Em terceiro lugar, 450 deputados deram o empurrão final em Eduardo Cunha, o boi de piranha. Afinal, ao menos um eles tinham que entregar à sanha anti corrupção que encheu as ruas de coxinhas e não coxinhas.
E Eduardo Cunha, acostumado a organizar dossiês contra seus adversários, já declarou que não fará delação premiada! E obviamente faz parte do acordo que o juiz Sérgio Moro não use com ele o sistema de tortura da prisão preventiva indeterminada, tortura a que submete a torto e a direito aqueles de quem imagina poder arrancar alguma delação. Pelas perguntas dirigidas por delegados, procuradores e pelo próprio juiz, tudo o que for dito que não interessa ouvir, recebe a resposta de que “isso não vem ao caso”, enunciado proferido pelo próprio juiz quando um inquirido disse o que não deveria ser ouvido. Os advogados de defesa conhecem muito bem o modo de funcionamento da imparcialidade de Sérgio Moro.
Pois temos o boi de piranha! Inelegível até 2027!!! E agora réu nas mãos de Sérgio Moro que lhe será doce e grato. Afinal, Cunha prestou o grande serviço de iniciar o processo de impeachment e isso precisa ser pago de alguma forma. Será no abrandamento da tortura psicológica a que todos os envolvidos na Lava Jato estão sendo submetidos.
Cunha não fará delação pública. Sabe que ganhará muito mais pela chantagem diária, contínua, constante. Vai com isso elevar seus fundos nas contas do exterior. E haverá muita gente contribuindo para isso. Ele sabe em excesso. Assim como comprou eleições de deputados do chamado Centrão, que agora o abandonaram, manobrará para comprar a eleição de outros deputados para compor sua bancada e apresentarem os requerimentos e projetos e emendas que beneficiem a quem Cunha quer pagar favores. É assim que ele viveu. É assim que viverá. E para isso precisa de dinheiro, e para ter dinheiro sabe que precisa usar em privado o que sabe para angariar os fundos necessários. De modo que Cunha, fora do poder, continuará a ter o mesmo poder que sempre teve: aquele dos subterrâneos da política.
Aécio Neves, Romero Jucá, José Serra, Michel Temer, todos estão tranquilos. Têm condições para suportar o novo quadro que se lhes apresenta. E não terão problemas com a justiça: Gilmar Mentes os garante. Garantia que seguramente depende do comportamento de Michel Temer: ou ele implementa todo o programa anti nacional do PSDB ou ele é cassado por Gilmar Mentes que floreará um parecer para aquele processo que está em suas mãos, de cassação da chapa Dilma-Temer, requerida pelo PSDB. Como Gilmar é militante do partido, segurará o processo por tempo indefinido se Michel Temer se comportar adequadamente; caso contrário, depois do dia 31 de dezembro, ele cai também e Henrique Meireles ou o Gen. Sérgio Etchegoyen, dependendo do andar da carruagem. O primeiro se o mercado o sustentar e estiver satisfeito; o segundo se o mercado o quiser, estiver satisfeito, mas a população for para a rua contra as medidas de arrocho e destruição da sobrevivência digna. A polícia de São Paulo está dando o exemplo, e o serviço de informações está atento… e seu chefe disponível para mais uma aventura, agora não mais nacionalista como foram Geisel e outros generais do passado, mas de acordo com os novos tempos da geopolítica norte-americana.
Infelizmente, o horizonte deles é este: ou Michel Temer, ou Henrique Meirelles ou o General Sérgio Etchegoyen. Horizonte ruim de qualquer forma. O nosso horizonte é outro: tomar as ruas e continuar nas ruas até derrubar a todos, inclusive não reelegendo qualquer um dos atuais membros do nosso parlamento em 2018: um renascer com novas caras.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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