As perguntas proibidas pelo Dr. Sérgio Moro

Eduardo Cunha sabe das coisas… Chamou Michel Temer para testemunha. Com o devido e salutar respeito devido à Presidência da República – mesmo quando ocupada ilegitimamente como é o caso – as perguntas dos advogados de defesa do ex-deputado foram feitas por escrito. Dentre elas, o juiz Sérgio Moro – indo além de suas prerrogativas, pois é seu dever não criar obstáculos para a defesa de qualquer réu, mesmo sendo este um conhecido criminoso como é o caso – vetou duas perguntas, precisamente as aquelas que demandam informação de Michel Temer se alguma vez José Yunes recebeu dinheiro para campanas do PMDB.

Vetadas as perguntas, elas não deixaram de se tornar públicas pela defesa do ex-deputado. E o objetivo deste era, de fato, chamar atenção para o fato de que sabia das coisas e poderia abrir o jogo. Temer, em razão do cargo, fez ouvidos moucos. Yunes percebeu o recado.

José Yunes é um empresário de um emaranhado de empresas, interligadas, numa teia cujo objetivo é velar, esconder, camuflar ações pouco recomendáveis. Mas ele é suficientemente inteligente. Recebido o recado, imediatamente e voluntariamente, vem a público contar sua história, sua versão da história. Recebeu em seu escritório, a pedido do licenciado ministro Eliseu Padilha, uma mala cujo conteúdo desconhecia. Não sabia que eram dólares. A mala foi depositada em guarda em seu escritório. Eliseu Padilha mandaria outra “mula” para apanhá-la. Foi isso, nada mais do que isso, sua participação nas contribuições ilegais para campanhas eleitorais.

Ou seja, o juiz Sérgio Moro tentou, com todas as forças, evitar que questões que não vem ao caso façam emergir o que não deve emergir. Seu papel definido alhures é duplo: destruir politicamente o lulopetismo (e particularmente Lula, que ele chama de Nine, isto é, Nove dedos) e destruir a economia brasileira evitando reduzindo a Petrobrás a um monte de lixo comprável a preço de banana. No entremeio, conseguir que empreiteiras brasileiras – usando os mesmos métodos que usam as outras multinacionais, como já se viu aqui mesmo com  a Alston e a Siemens – façam concorrência internacional àquelas sediadas na pátria-mãe, os EEUU. E a operação vinha conseguindo tudo isso.

A mídia, escandalizada com o que sempre soube, começa a separar os bonzinhos dos maus. Estes passam a ser o petralhas: aqueles usam camisas azuis, são mocinhos bem comportados. Acontece que entre os mocinhos havia um grande bandido, Eduardo Cunha. Era preciso defenestrá-lo. Defenestrado pela Justiça, ele manda da prisão os seus recados… Recado dado, ministro empossado no Ministério da Justiça, como se sabe. Ex-advogado no centro do poder, por onde passam todas as nomeações da caneta de Michel Temer…

O que o Dr. Sérgio Moro não queria, e sempre que aparecia algo, dizia “isto não vem ao caso”, é que as delações e os delatores abririam o jogo todo e não somente o desejado. E eis que os bons, os mocinhos, acabam se vendo empanturrados de denúncias. Somente agora o Rodrigo Janot pede abertura de investigações contra uns poucos, incluindo Aécio Neves. Não serão autorizadas, provavelmente, pois o pedido caiu em boas mãos por sorteio cego: foi para Gilmar Mentes. Rodrigo Janot fez o necessário jogo de cena. Passou a bola. O goleiro defende, ele sabe.

Com a “novela” José Yunes, sua mala e mula, começam a aparecer, a contragosto do santo juiz, o que ele tanto se esforçou para dizer que não vinha ao caso! Proibiu perguntas, não escutou o que não queria. Mas está tornando-se impossível tapar o sol com a peneira. A Operação Lava Jato terá que ir até o fim mesmo! E de preferência cumprindo a lei. Cumprida esta, sempre haverá a salvação do goleiro Gilmar Mentes.   

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.