Na semana que passou, participei de dois eventos em tudo dessemelhantes, ainda que ambos pretendendo ir além das fechadas discussões costumeiras da academia, onde se refugiaram os intelectuais no mundo contemporâneo.
Este refúgio, como já mostrou Russell Jacoby (Os últimos intelectuais), junto à tranquilidade da sobrevivência garantida e a consequente acomodação que trouxe, cobrou seu preço: a perda da audiência pública e a pouca influência no mundo da cultura urbana em que nos movemos todos. Retirados, os intelectuais são hoje pesquisadores que falam para seus colegas e para aqueles que se preparam para serem colegas.
Tive presença mínima nos dois eventos de que participei. No primeiro, de estudos bakhtinianos, volto a ser surpreendido pela recuperação contemporânea do estruturalismo, que reaparece através do retorno de conceitos como de escritura, afirmações metafóricas como “a língua é fascista” (o velho Barthes de antes dos Fragmentos…), que depois de afirmadas deixam de ser metafóricas porque acabam sendo a justificativa da sacralização da literatura e são o fundamento para a própria definição de “escritura literária”, o que por extensão passa a valer também para todas as demais artes cujos produtos são provenientes de uma escritura de uma superficie que se dá a ler.
Também com outros termos se recupera na forma de ‘modalização primária’, de base sintática, um inatismo de uma gramática semiótica, ao mesmo tempo em que explicitamente se recusa uma gramática universal inata… Sintaxe semiótica pode, sintaxe linguística não pode!!! Como se numa e noutra posição não se estivesse a repercutir a mesma concepção filosófica.
No segundo encontro, reage a academia ao crime de uma pesquisadora de outra área de especialidade que demonstra uma realidade óbvia: os currículos dos cursos de Letras repetem indefinidamente as mesmas disciplinas desde a criação das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras por lei de 1939!
Aliás, a mim me chamou atenção que foram suprimidos os poucos estudos que então se faziam de sociologia, uma área fundamental para o professor compreender o seu próprio trabalho de forma mais ampla… A academia bem posta não aguentou enxergar-se no espelho. Não gostou de ser ver tão vetusta e antiguada… Reagiu embravecida, retirando da pesquisadora o direito de monopólio de falar sobre educação, direito jamais reivindicado!
Acho mesmo que os letrados que nunca ouviram falar de teorias pedagógicas e muito menos de quaisquer rudimentos de sociologia são extremamente capazes de falarem sobre educação, área que eles consideram como a casa da Mãe Joana, sem o menor respeito que exigem sobre si próprios!
E eis que ouço então, mais uma vez, que um professor resolve as situações de aprendizagem se sabe o conteúdo da disciplina! Fico surpreso pela cegueira que se quer hiper lúcida! Já tinha ouvido a afirmação burra de que quem sabe fonética e fonologia sabe alfabetizar… Agora ouço a afirmação gêmea: quem sabe literatura, sabe ensiná-la, quem sabe gramática, sabe ensiná-la, quem sabe uma língua, sabe ensiná-la…
Por Deus, se fosse verdade que a formação do professor dependesse somente disso, deveríamos ter as melhores escolas fundamentais do mundo! Os cursos de licenciatura jamais se convencem de que o substantivo é “professor” e de que “de língua portuguesa, de língua espanhola, de ciências, de história…” é um complemento, um adjunto como explica a gramática que tanto voltaram a defender!!!
Para além das reações nestes dois ambientes fechados, fica a sensação estranha de que a academia, por falta de oxigenação pela realidade social, está sempre a morder seu próprio rabo…
João Wanderley Geraldi
Contributor
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.
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