Estou atravessando o Largo do Pará, uma praça no centro de Campinas. Como sempre se faz, não caminho em linhas retas, mas sigo os passeios previstos sem pisar na grama que morre por falta de chuva e água. Vou à Padaria do Nico buscar leite. Dois litros. Para dois dias.
Quando estou chegando ao final da travessia, à minha direita um carro puxado à mão, carregado de material reciclável, principalmente papelão, mas outras coisas também. Cinco homens estão descansando à sombra das árvores. Uns sentados. Está calor. Dois deles, de pé, discutem. Não presto atenção ao que dizem. Continuo caminhando vagarosamente.
De repente, os dois homens se estranham. Ficam frente a frente: encaram-se rancorosos. Irão ao que chamamos, não sei bem a razão, “às vias-de-fato” como se fato fosse o soco e o pontapé. Será que as vias da discussão não são vias-de-fato?
Estão ambos sem camisa. Calças sujas, arremangadas nas pernas. São calças claras, de cor indefinida. A pele branca queimada pelo trabalho de recolher o descartado, o sol castigando. Nada de bronzeamento artificial ou aquele do descanso praieiro.
Impressionante ver: os peitos estufam. Os olhos faíscam. Os músculos retesam. Estão ambos sem camisa. A fala grossa se esvai, tem intervalos, retorna – “que você está pensando?” entreouço. O enfrentamento é inevitável. Afastam-se, aproximam-se novamente. Pertíssimo: os olhos brilhando e o semblante de raiva dizia que não era um jogo de amor. Mas de ódio e briga.
E eis que dois dos homens que estavam sentados levantam. E um deles grita:
– Aqui, na empresa, não! Querem brigar, vão lá pra fora!
Os dois se interpõem. Separam os olhos raivosos. Cada um toma conta de um dos peitos estufados. Mas o olhar de raiva que se dirigiam permaneceu.
Que terá acontecido depois? Não soube. Já estava para além do “território da empresa”, quase na esquina, pronto para atravessar a Rua Duque de Caxias. Esperava o sinal abrir.
Mas penso com tristeza: Henrique Meirelles e a múmia ambulante que responde pelo nome de Paulo Guedes e todos seus economistas neoliberais perderam a grande oportunidade de estarem presentes e terem seu merecido – e talvez único – gozo efetivo: os catadores de lixo se têm por empresários. E a sede da empresa, se os economistas neoliberais quiserem conhecer – fica no Largo do Pará, quase na esquina em que se cruzam a Francisco Glicério e a Duque de Caxias.
A visitação é livre e gratuita. Alerta: na empresa não se briga, somente lá fora.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.
Grande!!!
Obrigado por ler… deve ser dos únicos! Há muita coisa boa para ler na internet.
Olhe, Wanderley, conheço muita gente que lê seus textos, e eu mesma sempre que posso… então não nos exclua!
Seus textos são um estímulo à leitura reflexiva.
Cenas de um cotidiano duro e penoso, como para a maioria da população brasileira. Belo texto!! Leio sempre também, porém raramente comento. Abraço!!
Puxa, como falta quem ande nas ruas, já não se entreouve ou se entrevê, exercitando cotidianamente ser o outro…
Adorei!
Que crônica, velho… Foi como se eu descobrisse o gênero de novo com aqueles gênios do Para gostar de ler.
Alexandre, Liana, Dulce, Jackeline, Neide: obrigado por lerem e pelo incentivo. Enveredar pela crônica do cotidiano, tentando produzir num gênero que nunca me foi próprio, dá sempre um certo sobressalto e nunca se sabe como os leitores recebem estes textos!
Ficou muito boa!