APOIADO PELO PT COLOCARÁ NA PAUTA REFORMAS CONTRA DIREITOS TRABALHISTAS

Rodrigo Maia, que foi apoiado pelo PT no segundo turno das eleições para a presidência da Câmara, tem suas prioridades na gestão dos seus seis meses (com mais 2 anos provavelmente a partir de fevereiro):  a reforma da previdência e todo o projeto econômico de Henrique Meirelles, o representante dos bancos no governo interino de Michel Temer (que, aliás, deixou de ser chamado de “presidente interino”).

Em entrevista, disse o novo presidente da Câmara que não tem qualquer compromisso com o PT de não por em votação a reforma da previdência. Tudo bem. Nem precisava ter compromisso algum, afinal os deputados petistas votaram nele por ideologia mesmo, por convicção política. Precisavam construir a “governabilidade da oposição”, signifique isso o que possa significar.

Continuo lamentando que havendo uma candidata como Luiza Erundina para a presidência da Câmara, o PT tenha negociado a candidatura de Marcelo Coelho, sabendo de antemão que ele nunca se elegeria, porque no segundo turno Rodrigo Maia e Rogério Russo se acertariam em nome da “base parlamentar sólida” do presidente interino. E dos 50 bi de déficit autorizado com que se comprou o impeachment, como afirmou a ex ministra Kátia Abreu.

Em outras palavras, estou com saudades do tempo em que a esquerda articulava anti-candidaturas sem medo, porque marcavam posição e ganhavam prestígio perante a nação. Agora não mais interessa ao partido qualquer gesto à esquerda, se este gesto possa representar uma perda de poder, uma perda de espaço (ainda que não se saiba qual seria este espaço na Câmara sob a presidência do DEM, considerando a “governabilidade da oposição”).

Agora precisaremos ficar atentos às prioridades do governo interino e de seu presidente na Câmara. Atentos em todos os sentidos: sobre seu conteúdo; sobre as manobras de benesses que negociará para a aprovação, mas, sobretudo, atentos aos deputados petistas, para verem como se comportarão: estariam agora dispostos a aprovar politicamente e definitivamente uma política econômica distante daquela que defenderam durante as eleições para a Presidência da República? Esta atenção deve ser redobrada, afinal já sofremos o calote eleitoral de Dilma Rousseff, que nomeou um assessor da campanha de Aécio Neves para seu Ministério da Fazenda, para implantar precisamente o inverso do que defendeu durante a campanha eleitoral. Se na Presidência houve esta guinada, sempre abençoada por grandes líderes petistas, nada estranho que, sob as mesmas bênçãos, agora os deputados também aprovem no parlamento a guinada iniciada por Dilma Rousseff.

O PT se destruiu pela corrupção que praticou da mesma forma que outros a praticaram. O PT se destruiu também pela guinada econômica para a política neoliberal. Assim, hoje a distinção que existia entre PSDB e PT já não é mais de projeto para a nação, mas de capacidade de implantá-lo sabendo camuflar corretamente desvios, como se sabe ocorreram nas privatarias e no tremsalão em São Paulo. Quer dizer, o PT não soube agir como o gato que tapa direitinho suas descargas. Faz merda sem competência! Mas o PSDB faz merda com competência. Essa é a diferença atual entre os dois partidos. E entenda-se aqui “competência” para esconder desvios, não competência para governar, que governadores do PSDB são guarda-livros: tem que bater crédito e débito. Se não bater, vende tudo o que puder (até cemitérios públicos paulistanos o então prefeito José Serra tentou vender!). Quando não houver mais o que vender, não saberão o que fazer porque não têm outro projeto para a sociedade brasileira que não seja seu depauperamento.  

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.