Como ensinou Angel Rama, os letrados têm gosto em prestar serviço à Casa Grande. Neste momento, são incapazes de conter sua alegria serviçal. Vários comentaristas da mídia tradicional escrita e televisiva estão assanhadíssimos analisando o tombo que levou o PT nestas eleições municipais de 2016.
E realmente o PT perdeu muitas prefeituras, passou a ter o tamanho que tinha nos anos 1980/1990. E com base nesta “fragorosa derrota”, analistas dizem que o recado das urnas foi: que o Lula não será a opção de voto em 2018, e numa extrapoloção que lógica alguma consegue explicar, dizem que os votos mostraram que não houve golpe no país. Certamente isto é muito mais um desejo de sentidos do que uma realidade.
Em primeiro lugar porque as eleições municipais sempre foram distintas das eleições gerais para o mais alto cargo executivo do país. Nas eleições municipais, as distinções são quase locais; as contraposições quase paroquiais.
E o mais assustador desta eleição foram os votos nulos, em branco e a abstenção! Foi tanta que não deu para um jornal como O Globo dar manchete sobre isso em relação ao segundo turno que elegeu Crivella para a prefeitura. Quase metade dos eleitores cariocas votou em branco, nulo ou simplesmente não compareceu às urnas. Este é um dado que pode anular as análises tão contagiadas pelo entusiasmo pelo “enterro definitivo do PT”. E o afogamento da candidatura Lula em 2018.
Iniciemos com uma primeira contradição: pregam o fim de Lula e ao mesmo tempo precisam engolir as pesquisas que o apresentam sempre como o primeiro da lista na próxima eleição presidencial. Ou não há contradição?
Depois consideremos que os dados de votos brancos e nulos e da abstenção resultam da satanização constante da política realizada pela imprensa. Não se assustem se o governo Temer editar uma MP tornando o voto facultativo, na esperança de não ver a periferia comparecer às urnas em 2018.
O problema de tal medida é que a periferia elegeu, por exemplo, Dória em primeiro turno em São Paulo. Mas ao mesmo tempo esta periferia, consultada sobre as eleições presidenciais, diz que votará em Lula. Depois de toda satanização da política, conheço pessoas desta periferia que somente voltarão a votar quando o Lula for candidato! E os que votaram em Dória responderam à imprensa: o voto num não político. Não adianta a Eliane CASTAnhêde, a moça da massa cheirosa, vir dizer que Dória é reconhecido como político, pois participou das prévias no PSDB, fez a campanha, etc… Ora, moça, ele próprio se fartou dizendo que não era político! E como vocês satanizaram a política, eis que Dória, com dor, se elege em primeiro turno. No entanto, estes mesmos eleitores dizem votar em Lula! Como aconteceu em 2002, 2006, 2010, 2014: votavam no/a candidato/a petista e elegiam um congresso com pensamento totalmente contrário ao voto majoritário dado! Este é o fenômeno social a ser estudado.
Acrescente-se ainda que nenhuma análise traz à baila um fato histórico: quantas prefeituras governava o PT quando Lula se elegeu em 2002? Governava a maioria das capitais? Governava as grandes cidades do interior? Governava nos rincões? Não! E Lula se elegeu com uma avalanche de votos!
Lula poderá não ser candidato em 2018. Na verdade, pessoalmente não acredito que venha a ser candidato. Muita água correrá no regime policial-jurídico que estamos vivendo. E esta água poderá afogar muita gente, não só Lula, inclusive o queridinho da imprensa brasileira, o Sr. José Serra. Não custa nada tornar inelegível qualquer cidadão quando não se tem qualquer garantia de manutenção dos termos constitucionais. E isto vale para membros de qualquer partido.
Concordo que o PT, enquanto partido, tende para seu fim. Mas isso não implica o fim de uma liderança realmente popular, que não provém da Casa Grande! Que não é herdeiro. É isso que vê o povo em Lula: alguém que não era herdeiro e que ultrapassou as barreiras da elite nacional, mesquinha e reacionária. Não se elegeu presidente porque tinha um sobrenome (Neves, Cardoso, Sodré…). Era simplesmente “Silva” como é o povo que a imprensa quer reduzir a rebanho.
Mas mesmo uma liderança popular, reconhecida, pode naufragar no Brasil contemporâneo. O fundamentalismo religioso que crassa pelo mundo também está aqui, bem presente. E o principal partido político brasileiro é a reunião das muitas igrejas. Se pastores e bispos conseguirem fanatizar a religiosidade popular, o próximo presidente da república virá de seu campo. E não será Marina Silva. Os pastores e bispos sabem incensar um Moro, um Dallagnol, um Alkmin (da Opus Dei).
Mas os tempos cruéis forjam lideranças. Leva tempo. Entre as greves do ABC nos anos 1970 e 1980 e a eleição de 2002 foram bem mais de 20 anos! E então celebrarão a democracia.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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