Manuseando a correspondência trocada entre os membros da família Marx, os primeiros membros da Internacional Socialista e de muitos militantes do século XIX, Mary Gabriel recompõe uma história próxima ao cotidiano vivido pela família de Karl Marx, sem deixar de lado incursões pela produção teórica daquele que revolucionou a compreensão do mundo e das relações sociais no interior do capitalismo. Acompanhar uma família e as relações entre seus membros no período que vai de 1835 a 1910, passando pelos grandes movimentos sociais do século (entre eles a Comuna de Paris) é uma aventura intelectual marcante para qualquer leitor.
O mistério do financiamento generoso de Engels para que Marx viesse a fazer sua produção teórica, os aportes financeiros constantes e a tendência de Marx para voltar à situação de penúria financeira depois de regularizada a situação por Engels que volta e volta a financiar a produção de Marx.
Neste livro, há uma compreensão humana da vida num século marcado pelo desenvolvimento do capitalismo mas também pelo desenvolvimento de seu contraponto, ao menos teórico, com os movimentos sindicais e partidários dos socialistas. Começava então uma sociedade de produção que necessitava como seu corolário um consumo desenfreado. Na fórmula mais compreensível de Marx, a pergunta daqueles que podiam pagar, no país mais desenvolvido da época (Inglaterra), já não era “do que eu preciso?”, mas “o que eu quero?” e “o abismo entre os que faziam essa pergunta e o resto da população havia ficado perigosamente vasto” (p.119).
O ponto mais interessante desta nova “radiografia” da vida familiar de Karl Marx é sua visada feminina: são as cartas escritas pelas mulheres da família Marx que permitirão à autora reelaborar a vida privada e cotidiana. A esposa, Jenny von Westphalen, filha da aristocracia de Trier (Barão von Westpahlen), apesar de suas origens sociais, foi capaz de acompanhar e apostar nos estudos e trabalhos do criador do socialismo científico. Pagou um preço extremamente alto: perdeu filhos porque não lhes pode dar o necessário para a subsistência; amargurou a falta de comida e calor nos invernos do exílio em Londres (antes passando por Paris e Bruxelas); humilhou-se pedindo dinheiro e heranças antecipadas. E nada de os livros de Marx virem a público ou, quando publicados, tornarem-se fontes de rendas que ajudassem a sustentar a vida.
As filhas sobreviventes (Jennychen, Laura e Eleanor) parece terem sido escolhidas pelo destino para reviverem, a seu tempo e a seu modo, o mesmo percurso da mãe. Todas tiveram maridos socialistas, praticamente incapazes de gerar rendas. Todos eles (Longuet, Lafarge e Aveling, respectivamente) foram militantes do socialismo, foram jornalistas, fizeram política partidária. Certamente os leitores terão uma antipatia maior por Aveling, cuja vida privada desregrada e infiel fez o infortúnio de Tussy (apelido de Eleanor Marx), até leva-la ao suicídio em 1897. Certamente também se comoverá com Freddy, que viveu buscando sua identidade e a identidade de seu pai. Inicialmente e sorrateiramente pensava-se ser Engels o pai, mas este antes de morrer indica o verdadeiro pai: Karl Marx. Este filho fora do casamento foi mantido em segredo e resultou de uma relação do pai do socialismo com Lenchen, a empregada que sempre acompanhou a família Marx em todos os seus momentos, ajudando Jenny na criação dos filhos e comandando a casa da família. Não há como não se emocionar, ao final do livro, acompanhando o final da vida do casal Lafargue (Laura Marx e Paul Lafargue) que escolhem não envelhecer e preferem o suicídio: o mundo socialista inteiro traz suas condolências e acompanha o casal até o cemitério Père Lachaise no dia 3 de dezembro de 1911.
Ler o livro de Mary Gabriel é uma aventura intelectual, particularmente para aqueles que gostam de história, que queiram compreender o século XIX e que, sem preconceitos prévios, sejam capazes de entender a humanidade de um dos maiores pensadores que já tivemos na história, aquele que nas palavras de George Bernard Shaw “realizou a maior proeza literária que um homem pode almejar: Marx mudou a consciência do mundo”.
Referência. Mary Gabriel. Amor & Capital. A saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução. Rio de Janeiro : Zahar, 2013
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.
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