AFIVELEM OS CINTOS, TRUMP VEM AÍ…

Trump ganha as eleições nos EEUU; o jornal O Globo dá manchete e também chama para uma importante notícia: um cachorro sequestrado foi recuperado graças às redes sociais. Estou juntando estas duas manchetes propositadamente.

Nas redes sociais das escritas rápidas, dos Ois, dos Bom Dia e de no máximo duas linhas, circulam que discursos? Twuita-se uma chamada porque se sabe que, diante de tantas coisas para ler, o navegador ficará apenas com a chamada, nada mais.

Uma ferramenta que poderia ser revolucionária por dar a todos o direito à expressão está sendo o espaço do pouco, do mínimo em número infinito. Imbeciliza? Acostuma à leitura de poucas linhas? Para os otimistas, ao menos a escrita está circulando. Antes os “navegadores”, os “polegarzinhos” não liam nada, agora leem de tudo correndo o mouse, clicando aqui e acolá, desistindo imediatamente quando o texto tem mais do que um simples parágrafo. São sujeitos desinformados com montanhas de informações superficiais.

Estes são os sujeitos que engrossam o MBL e se deixam convencer com facilidade pelo discurso de direita, repetindo-o ad nauseam e votando no primeiro populista que aparece, estilo Donald Trump.

A humanidade navega apressada para um conservadorismo atroz. A direita agora é contra a globalização! Primeiro produziu o discurso ideológico que a justificou (porque quem a implantou mesmo foi o sistema capitalista que precisava chegar a todos os rincões da exploração). Teremos a partir de agora um embate em que já sabemos o vencedor: o novo discurso da direita, vencedora das eleições nos EEUU, e as práticas econômica e financeira efetiva dos grandes conglomerados multinacionais. Obviamente elas concentram seus lucros em suas matrizes neste mundo que se diz sem fronteiras, sem nacionalidades mas em que há nações cada vez mais ricas e nações cada vez mais pobres.

Que futuro nos propõe Trump? Um rico que ainda acredita que o capitalismo é de produção, e não simplesmente financeiro e improdutivo em termos concretos. Um retorno aos anos que antecederam a ascensão do financismo? Impossível chegar a isso, porque um tal projeto significaria a destruição do próprio regime capitalista. Creio que na área econômica nada haverá de novo a não ser uma maior rapidez no enriquecimento dos ricos, que não deixou de existir sob os governos do Partido Democrático.

Ele prometeu melhoria na qualidade de vida dos norte-americanos trazendo de volta as indústrias que hoje exploram mão de obra barata no planeta inteiro. Voltarão? Para voltarem vão querer garantir sua lucratividade atual e aumenta-la. Para isso será necessário reduzir o padrão salarial dos trabalhadores norte-americanos e em consequência seus padrões de consumo. Logo, não haverá qualquer melhora na qualidade de vida! Neste sentido, Trump frustrará seus eleitores de baixa renda, aqueles que trocam “bons dias” pelo zap e não leem textos com mais de duas linhas (é que tendo três linhas, eles esquecem o que leram da primeira linha!). Logo, o futuro será de uma mais larga exploração do trabalhador e de uma crise de consumo de pessoal incluído no mercado de trabalho. Porque incluir no trabalho para baixar as possibilidades de futuro é o suprassumo da exploração capitalista, que não deixará de ser rentista.

Restará alguma mudança nas guerras sujas que realizam os EEUU pelo mundo? Bom, não esqueçamos que os presidentes democratas não foram nada pacíficos. Mesmo do mito John Kennedy não se pode esquecer que iniciou a guerra do Vietnã e patrocinou a invasão frustrada de Cuba através da Baía dos Porcos. Obama, ostentando o Prêmio Nobel da Paz, não deixou de realizar semanalmente as reuniões das terças-feiras em que são atualizadas as listas dos “alvos a serem mortos” porque inimigos potenciais dos EEUU. Para entrar na lista, às vezes basta ser muçulmano e estar em idade de serviço militar! Que fará Trump? O armamentismo interno que professa com fé permanecerá vigoroso em termos externos. As guerras continuarão. As “primaveras” fabricadas dentro da CIA continuarão a existir. Então, até para que a “industrialização” não sofra e os empregos não diminuam, há que manter a convocação de combatentes e fazer funcionar a pleno vapor as indústrias armamentistas.

Então o futuro planetário será na verdade o mesmo que é hoje: a manutenção de tudo o que de ruim traz o sistema. Mas haverá uma mudança bastante significativa para o quintal dos EEUU, isto é, a América Latina. Voltará a ser latrina. Sob o comando e patrocínio de Trump. No continente voltarão as ditaduras e a imposição do silêncio. As embaixadas trabalharão a torto e a direito pela direita. Será isto que sofreremos sob Trump, enquanto sorrirão golpistas do estilo Serra, FHC, Jucá, o sistema policial e jurídico incluindo procuradores da escola curitibana explanados pelo país, os juízes que determinam o uso da tortura, os ministros Gilmar Mentes e seus sequazes. Não incluo na lista nosso Excelentíssimo Senhor Presidente, Michel Temer porque mero joguete de outros interesses. Não será o ditador. Será subordinado na presidência. Também não incluo Moros e Dallagnois porque descartáveis como descartado foi Lacerda. A UDN de hoje são os bicudos tucanos e qualquer moralismo efetivo, que vá além das aparências discursivas para trouxas, incomoda-os sobremaneira.

Então, senhores, afivelem seus cintos. Trump vem aí…   

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.