Abafar protestos: hoje, retorno das cenas da ditadura militar

O pagamento de mensalidades/anuidades nas universidades públicas vai avançando vagarosamente, e aos sobressaltos, para que se espraie pela sociedade a aceitação ideológica de que ensino superior gratuito, ofertado pelas universidades públicas (federais, estaduais ou raras municipais) é mais um privilégio destinado àqueles do alto da pirâmide social. O argumento é falso: os alunos das universidades públicas provêm de diferentes classes sociais. E os programas de inclusão, pelo regime de cotas – contra o qual os mesmos defensores do ensino pago esbravejam – vêm diversificando o corpo discente das universidades. Sem falar naquelas que, criadas no governo Lula, são praticamente tomadas por estudantes que antes estavam fora do sistema de ensino superior.

Não esqueçamos um dado: o elitismo existente – e persistente, sabemos – levou o país a ter o mais baixo índice latino-americano de jovens entre 18 e 25 anos matriculados no ensino superior, ainda no final dos anos 1990. A mudança de posição deste lugar vergonhoso que ocupávamos se deve a programas como PROUNI, REUNI e a criação de novas universidades federais, a maioria multi campi, no interior do país.

Maria Helena Souza Castro foi a autoridade federal a primeiro anunciar que o ensino superior seria pago. Embora o Ministro da Educação, a rainha da Inglaterra neste ministério, tenha vindo a público desmentir que dentro do MEC se discuta o pagamento, a gravação feita da fala de Maria Helena e os inúmeros testemunhos não apagam o que disse a Secretária Executiva do MEC. Aliás, ela não foi afastada do MEC, porque o ministro é fantoche e quem governa o ministério é o PSDB, representado nos altos escalões precisamente pela defensora do ensino pago.

Na frente estadual paulista – também governada pelo PSDB – o projeto de extinguir o ensino superior gratuito caminha. O Conselho Estadual de Educação pautou o tema, para acabar com a gratuidade dos cursos de pós-graduação no Centro Paula Souza, responsável por todas as FATECs do Estado de São Paulo.

Os estudantes de mobilizaram. E foram vitoriosos: o tema foi retirado da pauta. E então o presidente do DCE foi às salas de aulas da FETEC/Ipiranga para comunicar aos colegas a vitória conseguida.

Uma professora da FATEC/Ipiranga agredia o DCE por sua luta, acusando de “mentiroso” e invectivando contra os estudantes chamados de “massa de manobra”. A direção do estabelecimento chamou a polícia… Provavelmente, tanto os membros da direção da Fatec/Ipiranga quanto a agressiva professora fizeram seus cursos de pós-graduação em instituições públicas e gratuitas!!! Mas esqueceram disso. É que talvez sobre, das mensalidades, alguma verbinha tipo “caixa 2” para os professores envolvidos nos cursos pagos. Lamentável que docentes do ensino superior se vendam por migalhas…

E neste clima, aconteceram as cenas da prisão do presidente do DCE, o estudante Henrique Domingues no interior da Fatec/Ipiranga.

Para quem assistiu nas redes sociais as cenas da prisão do estudante, e para quem viveu os anos iniciais da ditadura, as semelhanças não são coincidências. As únicas diferenças, por enquanto, são a hipocrisia dos mandantes do governo dizendo que tomarão providências contra os atos arbitrários (de que são mandantes e coniventes, pela implementação de suas políticas sociais) e a raridade – sempre por enquanto – de tais cenas. Quem viveu, e vive novamente estas cenas, deve estar apavorado! O caminho que o golpe e a política neoliberal está assumindo na área social é aquele contra o qual escreveu Goethe, na voz de Mefistófeles (1ª. Parte,  Cena “Sonho da Noite de Valpúrgis ou As Bodas de outro de Oberon e Titânia”):

“Pretendes agarrar o raio? Inda bem , míseros mortais, não terdes esse poder! Aniquilar o inocente que os enfrenta, é o modo pelo qual tiranos aliviam seus pesares.”

Aos poderosos avisa Mefistófeles: impossível segura o raio da revolta e da luta contra a concentração da riqueza comum e por todos produzida nas mãos da minoria chamada de “mercado”.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.