O movimento de paralisação dos serviços dos policiais militares do Espírito Santo, liderado pelas mulheres, surpreende tanto pelo ineditismo do modelo de “greve” – as mulheres são mais fortes que as armas dos maridos e os deixam parados dentro dos batalhões – quanto pela sua extensão.
Mas o que apavora é a violência que corre solta na grande Vitória! 85 mortos é número comum em batalhas oficiais, em guerras declaradas. E a pergunta a ser formulada não é a propósito da legalidade ou ilegalidade da paralisação, nem da “força bruta” das mulheres que se veem forçadas ao corte na economia doméstica em função dos salários de seus maridos. A pergunta fundamental, parece-me, diz respeito à construção social da violência que agora aflora nesta parte do país, mas que já vem aparecendo em outros vários momentos, como as chamadas “rebeliões nos presídios”, na execução de inocentes pela polícia militar no Ceará, as execuções frequentes da polícia paulista filmadas e reprisadas na mídia sem que haja uma reação à altura dos crimes cometidos.
A simples ausência de policiamento, o que deveria ser a norma, pois sua presença é uma excentricidade nas relações sociais, deflagra uma violência em tão alto grau que precisamos repensar nossa não humanidade. Se cada um precisa ter um policial ao lado para ter um comportamento solidário, fraterno e correto, então jamais haverá qualquer segurança social.
Ora, a violência tanto dos policiais quanto a violência praticada por criminosos nas ruas desvela que o país está num caos social de proporções gigantescas! No “salve-se quem puder”, modelo de comportamento adequado a tal política econômica que deixa o “mercado” (isto é, os ricos de muito capital) regular tudo. Ora, no “mercado” há uma luta insana por lucros, venham eles de onde vierem! E a luta não se dá sem violência. Inclusive a luta por melhores salários reivindicados pelas mulheres dos policiais capixabas.
Assim, esparrama-se pela sociedade como um todo que ser violento e agressivo é a forma adequada de sobrevivência. Isto nos ensinam diuturnamente os defensores do mercado, da liberdade dos capitais, da naturalização da exploração do homem pelo homem, num retorno à barbárie que parecia ter sido abandonada à medida que o processo civilizatório avançava, chegando ao Estado de Bem-Estar Social.
Não que nos lugares a que se chegou ao estado de bem-estar social não haja diferenças de rendas, que não haja lucros. Trata-se, simplesmente, de uma melhor distribuição desta renda de modo a não deixar tudo para 1% da população. Os países da Escandinávia sempre são apontados como modelos! Na Dinamarca, por exemplo, os salários médios são praticamente equivalentes. Uma professora universitária quase em final de carreira ganha 10% a 15% mais do que uma professora de escola maternal. A distância entre um pedreiro e um engenheiro não é superior a 50%, quando por aqui é 300 a 1000 vezes mais.
Mas também por lá, graças à exploração no resto do planeta, começam a aparecer músicos nas ruas vivendo do que lhes dá o passante; também lá começam a acontecer os furtos em casas. O isolamento é impossível e quanto mais se aprofundar o fosso abismal da diferença de condições de vida pelo planeta, menos condições terão os países escandinavos de manterem as condições de vida que preservaram até agora.
Falei deste modelo de bem-estar social porque hoje já sonho distante um capitalismo produtivo e com distribuição mínima de renda!!! Imagine sonhar com outro mundo possível, de um socialismo libertário e com liberdade. O estado de bem-estar social ao menos já foi praticado, até mesmo na Alemanha onde o empobrecimento da população começa a aparecer enquanto o país lucra com a derrocada de outros países da comunidade europeia.
A violência no Espírito Santo, mesmo para aqueles que acham bobagem pensar de forma mais alargada, é apenas uma ponta do iceberg de um modelo econômico que deveria tirar as patas da história.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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