Fiquei fora do ar por um longo período, enquanto acompanhava a longa agonia de minha sogra, em minha terra natal, São Luiz Gonzaga-RS. Luto com o luto. Ao contrário de muitos maridos, eu era muito amigo de minha sogra. Aliás, havia até ciúmes porque me achavam o queridinho da sogra. No último período em que ainda fazia esforço para estar entre nós, apesar do avanço do Alzheimer, me tratava como seu pai e me pedia licença para fazer qualquer coisa que estava na ordem de suas atividades.
Perdi uma amiga, de que fui confidente: a mim ela contou muitos episódios da vida que não revelou a outros. Nunca esquecerei conversas que tivemos, sentados na sacada de seu apartamento. Ela me fazia perguntas cruciais para uma crente:
– Wanderley, o céu é tão grande. Lá é como aqui, tem um céu de São Luiz Gonzaga? Porque se não for assim, como vou encontrar o José (meu sogro) num céu tão grande?
– Wanderley, quando o José morreu eu era mais nova do que ele. Agora eu sou uma velha. Será que ele ficou com a idade com que morreu ou ele envelheceu também? Será que ele vai querer ficar comigo, agora que sou bem mais velha do que ele?
Perguntas teológicas fundamentais! Ao crer na ressurreição da carne, com que carne ressurgirá? Que relações serão mantidas por lá? As mesmas que cá existem?
Doutra feita, viajávamos pela Rodovia Tamoios, voltando para Campinas. No carro, estava também a minha mãe. De repente, ouvimos Corinta e eu, minha sogra dizer à minha mãe:
– D. Maria, vivendo e aprendendo. Só agora aprendi que as montanhas são as mães das nuvens!
Por isso, luto com o luto e sei que vagarosamente a vida voltará a seus eixos…
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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