A TEMPERATURA SOBE, O CACETETE DESCE

Toda movimentação que levou ao impeachment sem crime justificava-se  abertamente na necessidade de um governo com estabilidade e com projeto econômico viável para a retomada do crescimento e do emprego.

Os objetivos não confessados publicamente são outros. Em janeiro de 2014 o ex-ministro de FHC já dizia duas providências necessárias para o país: acabar com a “política agressiva” dos aumentos reais do salário mínimo (política de transferência e distribuição de renda para o trabalho) e aumentar a taxa de desemprego para diminuir a pressão no mercado de trabalho, excessivamente desfavorável aos empregadores. O primeiro ano do governo Dilma, sob a batuta de Joaquim Levy, o segundo objetivo foi alcançado. Mas isso foi insuficiente: era preciso afastar um governo com compromissos populares para garantir “tranquilidade” ao mercado, abrindo mais espaço para negócios da china (isto é, mais um período de privataria a acontecer precisamente quando as grandes empreiteiras nacionais estivessem sem condições de participar das “compras”, deixando o campo totalmente aberto ao capital estrangeiro).

Mas para conseguir estes objetivos reais, foi necessário fazer uma operação política libertando todos os avatares, todos os monstros do pensamento de direita do Brasil. Foi o que fez a campanha pelo impeachment. As lideranças dos movimentos que foram para as ruas, treinadas nos EEUU como foram os líderes do MBL, esperavam um estopim para se apropriarem das ruas. A manifestação de junho de 2013, em São Paulo, forneceu este estopim. A sequência de manifestações que se seguiram por todo o país foi apropriada pela direita que canalizou para si o descontentamento da população que tinha sua raiz  fundamental no desejo de maior fatia no consumo, já que foi pelo consumo que se fez a inclusão dos pobres ao longo do governo Lula e primeiro mandato de Dilma.

Como todo o processo de inclusão social e distribuição mínima de renda se fez sem qualquer preocupação com a inclusão cidadã e política daqueles que subiram em suas escalas de consumidores (não houve qualquer mudança de classe social, houve foi o trabalho sendo remunerado mais condignamente), o terreno estava preparado para a satanização da política. Acrescente-se a isso toda a falsa luta contra a corrupção, porque uma luta marcadamente partidária, e estava preparado o terreno para o impeachment. Só que isso liberou a direita raivosa! Aquela que pede a volta da ditadura, aquela que considera qualquer direito um privilégio.

E eis que surge o tal governo estável, cantando em prosa e verso pela mídia nacional. Com apoio no Congresso, com apoio das elites, com apoio do capital financeiro, com o apoio da sede do império. Estavam todos felizes, alegres. Ainda que sejam lideranças interesseiras, são civilizadas. Um verniz de civilidade para uma incivil apropriação do estado e das riquezas nacionais.

O que eles não contavam é que não teriam forças para enjaular o monstro que libertaram. E o monstro continuou agindo, raivosamente. Ela aparece como milícia contra estudantes nas ocupações das escolas. Enquanto isso acontecia, ainda recebiam palmas dos “civilizados”.

Agora ela invade a Câmara dos Deputados. Sentam nos bancos da mesa diretora. Surpreendentemente, do ponto de vista jornalístico, a TV Câmara sai imediatamente do ar, e seus jornalistas – por profissão desejosos de notícias e esta era uma notícia política importante – saem do recinto ordeiramente. Ninguém fica para registrar o ato.

Depois, o presidente da Câmara reage dizendo que informará à polícia sobre a invasão! Será que ela já não estava informada? Na véspera, o procurador Dallagnol havia twitado que era preciso estar atento à Câmara dos Deputados, porque estavam querendo aprovar uma lei de responsabilidade para atos ilegais praticados por juízes e procuradores… E os procuradores querem liberdade total, nada de responsabilidade como crime. Se fosse qualquer petista que tivesse twitado, e logo depois tivesse havido a invasão, o procurador ligaria os dois fatos para condenar o petista por incentivo à violência!

E aí à noite a temperatura sobe um pouco mais: militantes cercam o Planalto para evitar o novo jantar festivo, agora de senadores, em palácio para, bem alimentados e satisfeitos – afinal para algum lugar devem ir os 2 milhões mensais que gasta o casal Temer – votem na agora PEC 55. E um senador manda o motorista investir contra manifestantes, tornando seu motorista criminoso por tentar passar por cima de três pessoas! Um ficou com fratura exposta!!!

E tudo isso quando ainda nem havíamos convalescido da notícia do pai rancoroso que em Goiânia planeja e mata o filho, para depois, num abraço de morte onde as diferenças desaparecem, suicidar-se.

E no Rio a polícia ataca manifestantes na ALERJ que não queriam, e com razão, o saco de maldades que inclui um desconto de 30% nos salários dos servidores…

Enquanto isso, galhardo e pairando acima de qualquer suspeita, Sérgio Moro, o santo e imparcial juiz, manda prender Garotinho, depois Sérgio Cabral (quem mandou não se filiarem ao PSDB!). E isto tudo num tempo de governo estável, de política apaziguada.  

A temperatura cresce, o cassetete policial baixa. O judiciário aprova e prende. E Marcela e Temer oferecem banquetes. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.