Quando Michel Temer, ainda interino, nomeou seu ministério composto somente de homens brancos (não entendo a reclamação feminista, pois já estava previsto que a primeira dama Marcela Temer daria conta desta falta assumindo como assistencialismo o que desde a Constituição de 1988 é dever do Estado), não faltaram jornalistas e comentaristas para apontar que o ministério desvelava a sólida base parlamentar de apoio a Michel Temer. Entre os cronistas de lugar fixo na grande imprensa, destaca-se a moça da massa cheirosa, Elaine Cantanhêde, que saiu berrando a quem quisesse ouvir: um ministério excelente revelador da tal base sólida.
Pois a base sólida se dilui a cada evento político de grandes proporções. O PSDB e o DEM, cujos políticos se elegem com o voto do “mercado” (constituído por patrões, executivos e classe média alta, somados a votos da classe média baixa que quer imitar os ricos, a maior invenção do capitalismo) e que não estão nominalmente no poder, com a caneta na mão para nomear e demitir, mas ainda assim impõem continuamente ao presidente e a seu partido o que querem que feito seja, ameaçando a todo momento de se retirar da “sólida base parlamentar”.
Isto tem deixado o PMDB de Romero Jucá e o Temerbroso em apuros constantes. E sempre à procura de um bode expiatório para recompor a tal “solidez fluida” da base elogiada por gregos e troianos da grande imprensa auxiliar da deposição de Dilma Rousseff.
Assim, bem apressadamente Michel Temer, que foi consultado inclusive como constitucionalista sobre o “fatiamento” da votação do impeachment e deu carta branca para a não cassação dos direitos políticos da presidenta, teve que desmentir o que antes era verdade sabida. E a culpa recaiu sobre Renan Calheiros.
Aí DEM, com assinatura posterior do PSDB (incrível, não vi a notícia de que o partido capacho PPS tenha assinado a petição ao STF, mas devo estar desinformado) recorreu à judicialização exigindo que a suprema corte (com os serviços sempre disponíveis de Gilmar Mentes e Dias Toffolli) declarassem ilegal a “pena branda” (isso até me parece a FSP falando em ditabranda para a ditadura militar que nos avassalou) e cassem os direitos políticos de Dilma Rousseff (o medo é tamanho!).
Reclamavam os próceres do “apoio sólido” que o PMDB não podia ter roído a corda: tinha que ser coerente até o fim com a votação fazendo ser crime o que crime não era. Pois balançou tudo. Assim mesmo o PMDB não assinou a petição! Aí teve-se que desmentir de que Temer estava informado, e mais, exigir que o PMDB se alinhasse ao DEM e ao PSDB. Então, contrariando seus próprios votos, lá se foi Romero Jucá (que jamais será investigado pela Lava Jato) assinar atrasado e atabalhoado a petição na secretaria do STF!
Agora, nova crise se avoluma. Novamente estão em díspares posições aqueles que apenas se reuniram para perpetuar o crime do impeachment: o PMDB que tem bases mais espalhadas pelo país e por isso tem inúmeros candidatos às prefeituras, incluindo entre eles deputados federais, querem que o governo não envie para o Congresso a reforma da previdência, com a aposentadoria somente com o pé na cova! No parlamento terão que apoiar a medida; nos palanques e nas ruas deverão criticar aquilo mesmo a que dão e darão seu voto favorável! Alguns já expressam claramente que sendo a medida antipática, não podem eles próprios se tornarem antipáticos diante dos trabalhadores que, infelizmente para o PSDB, ainda não tiveram seus títulos eleitorais cassados pela reforma trabalhista e política (poderá vir a acontecer, como já foi na época do império: serão votantes aqueles que tivessem um X de patrimônio e um Y de renda anual, para que a representação fosse mais “elevada” e “digna”).
Mas o PSDB quer que o governo mostre ao mercado (seus eleitores preferidos) e encaminhe logo a reforma da previdência! E assim dança Temer temerosamente entre um PMDB mais sensível ao voto e um PSDB extremamente capacho do “mercado” (leia-se bancos, multinacionais, petrolíferas – todas de preferência com atestado de nascimento nos EEUU).
Haverá outro embate na próxima semana: Eduardo Cunha trabalha com duas hipóteses, o esvaziamento da sessão de segunda-feira, dia 12 de modo que não haja votação no processo de sua cassação (aliás providencialmente marcada a sessão para uma segunda-feira de um período eleitoral) ou em havendo sessão e ocorrendo a cassação, que haja o mesmo fatiamento que “beneficiou” Dilma Rousseff (eta benefício! Tiram-na injustamente da presidência, mas ela sai como beneficiada. É definitivamente cômica a política brasileira e são cômicos os comentaristas da grande imprensa! Não é tragédia, é peça cômica mesmo!). E o DEM e o PSDB da Câmara vão ser contra o fatiamento, ao menos para parecerem coerentes com a petição em tramitação no STF.
Acontece que Michel Temer já foi avisado por Eduardo Cunha: não admite se cassado… pode até ser afastado deste mandato, mas quer retornar em 2018 com toda a força! E Temer teme Eduardo Cunha, porque Cunha sabe em excesso! Talvez haja alguma solução encomendável na baixada fluminense (sem demérito à sua população que nada tem a ver com isso). Chama-se queima de arquivo. Mas esta saída é meio radical, e talvez inútil, até para Michel Temer.
E assim vamos indo: PSDB e DEM pressionando e ameaçando semanalmente saírem do governo caso não realizem o que desejam; semanalmente Michel Temer se desmentido tornando falso o verdadeiro; semanalmente uma crise numa “sólida base parlamentar”, tema a que Elaine Cantenhêde não retorna porque comentaristas da grande imprensa esquecem o que disseram ontem e permanecem comentaristas bem pagos apesar de seus constantes erros e poucos acertos. E o pior para o comentarista político é que ele não pode apresentar diariamente a desculpa que apresenta certo comentarista econômico de nome meio sardento do Jornal da Globo, que tem a frase feita que o mantém eternamente no cargo (e depois dizem que a iniciativa privada demite imediatamente os incompetentes!). Eis o que diz “o mercado não reagiu conforme o esperado”.
A “sólida base parlamentar” de Michel Temer não está reagindo conforme o esperado.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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