Aconteceu-me assistir a uma mesa-redonda numa CBE, penso que em Niterói, sobre economia da educação. Por aqueles tempos estava havendo troca de governo. Os economistas que deixavam os cargos foram a público para dizer o que deveria ser feito pelo próximo governo para garantir o que eles não tinham garantido: uma educação de qualidade.
As falas foram recheadas de estatísticas – sem power point ao bom estilo curitibano. O público assistia entre apático e surpreso. E eles debatiam e se debatiam. Enfim, encerraram-se as falas dos expositores, e a palavra foi aberta para o público.
Sempre este é um momento de silêncio… às vezes até constrangedor. Tudo estava em silêncio, mas de repente ouço saltos femininos batendo nos tacos do assoalho. Uma professora chegou ao microfone. Confesso que fiquei um tanto espantado: alguém teria compreendido tudo e estava disposto, do público, a formular perguntas, a debater o tratamento dado ao assunto…
Esperei curioso. E lá veio a fala da professora. Perguntou ao público se todos eram professores universitários. Olhou para os membros da mesa um tanto desafiadora. E fez sua proposta: para ela todos os professores de todas as universidades teriam o direito de bater – uma boa surra – em cada candidato que entrasse para o curso de economia. No meio do curso, uma nova surra seria necessária. E na formatura, todos os docentes da universidade deveriam ser convocados para repetir o tratamento. E justificou sua proposta: os economistas que hoje nos falaram vieram nos mostraram dados de mortalidade infantil, reprovações escolares, de evasões, de recursos aplicados e de recursos necessários e não investidos na educação. Enfim, tornaram tudo matemática. E esqueceram por completo que por trás dos números há gente de carne e osso. Que por trás de uma morte de criança, há uma mãe que chora. Esqueceram que reprovações e repetências causam tristezas. Esqueceram que as evasões são produzidas e não caem do ar simplesmente para conformarem os números apresentados. Enfim: as surras periódicas na formação dos economistas deveriam fazer com que eles voltassem a ter algum sentimento, alguma sensibilidade. Talvez ajudasse mais tarde…
A professora foi aplaudida em pé pelo público presente, que junto com ela se retirou do auditório, deixando os economistas sozinhos a olharem um para o outro.
Pois não é que o jornal O GLOBO – pasmem, ele mesmo! – na edição de ontem traz uma reportagem escrita com sensibilidade pelos repórteres que tomaram o caso particular de uma família de desempregados e foram mostrando como eles estavam tentando driblar a situação diminuindo a qualidade de vida de todos. E como uma boa reportagem, palavras de autoridades foram trazidas à baila. Autoridades são os economistas… E eles afirmam, assim, sem qualquer rubor nas faces: até 2025 um milhão de famílias entrará para a classe D e E (ou seja, dos pobres e miseráveis). E este um milhão será formado por dois grupos: aqueles que descerão da classe média [de consumo] para a pobreza e as novas famílias que se constituirão sem qualquer preparo para enfrentar o disputado mercado de trabalho porque não terão formação suficiente para isso, já que muito cedo os filhos deixarão as escolas para ajudarem no sustento da família dos pais em empregos subalternos e mal pagos.
Pois os economistas falaram ao repórter. Estão lá, devidamente citados. Mas a sensibilidade do jornalista, que mesmo trabalhando para uma organização sabidamente sonegadora e golpista, traz também a fala de um sociólogo sobre o mesmo tema que transcrevo aqui:
Apesar do prognóstico negativo para os próximos anos, Carlos Antonio Costa Ribeiro, sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Uerj, avalia que a perda de bem-estar é longe de ser irreversível. Ele aponta duas razões: a chamada mobilidade intergeracional, que mede se os filhos vivem em condições melhores que os pais, tem mostrado resultados positivos, e o ritmo menor de crescimento da população:
— As pessoas estão tendo menos filhos. O Brasil tem taxa de reposição menor do que dois, está em 1,8 filho por família. Se a população diminui, e o sistema educacional continua se expandindo, isso significa menos gente entrando na economia ao longo do tempo, com maior escolaridade.
Oliveira condiciona a sustentabilidade da ascensão de classe à melhoria do que chama de infraestrutura social: educação, saúde, saneamento básico e segurança:
— Precisamos de foco na eficiência e na qualidade da infraestrutura social para obter resultados melhores do que as projeções. Caso a família perca o plano de saúde e a possibilidade de manter o filho em escola particular, poderia encontrar bons hospitais públicos. Um grande investimento nessas áreas pode fazer a diferença e criar ascensão social mais lenta. Com isso, não ocorreriam grandes movimentos de consumo ou euforia, mas a construção de uma nação mais igualitária (http://oglobo.globo.com/economia/um-milhao-de-familias-entrara-para-as-classes-e-ate-2025-20261906#ixzz4MbU3RKLj)
Pois os mesmos economistas que nesta reportagem analisam o futuro do brasileiro, com assustadores prognósticos, são aqueles que em contraposição ao sociólogo citado defendem o congelamento dos orçamentos da educação, da saúde, do saneamento e da segurança nos próximos 20 anos para transferir toda a renda gerada pelo empobrecimento do povo para os banqueiros! É incrível o quanto eles são sensíveis ao mercado, aos bancos, aos fundos… E como sua sensibilidade se transformou em “semsibilidade” quanto se referem às famílias que cairão para a pobreza e a miséria. Quanto ao prefixo “neo”, cada leitor poderá completar como quiser: neoliberal é o menos pejorativo que se pode dizer desta escola de economistas, mas há outros “neo” à disposição dos leitores talvez mais adequados àqueles que se definem por um pensamento único.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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