Sem a menor sombra de dúvidas, a manifestação de ontem foi robusta e merece atenção. Mas há elementos do cenário que merecem relevo nesta atenção:
1. A inversão de símbolos: a manifestação escolheu o dia 13, que rememora o comício pelas reformas do governo Jango, e que incitou ao golpe militar de 1 de abril de 1964. A chamada esquerda convocou uma de suas manifestações pelo respeito ao mandato (não necessariamente de apoio aos gestos administrativos do governo) para o dia 31 de março, data que o golpe militar fixou para suas comemorações quando sabemos que o golpe se realizou mesmo no dia da mentira.
2. A renda dos manifestantes: o DataFolha, instituto de pesquisa a que dão crédito os manifestantes e seus apoiadores, deu o perfil dos manifestantes da Av. Paulista e 66% deles recebem mais do que 5 salários mínimos. Esta não é a renda do povão de São Paulo e muito menos do Brasil como um todo. Estes, que formaram a maioria na outorga do mandato para Dilma Roussef, estão sofrendo um bombardeio midiático para lhes impor a vontade dos bem pagos, precisamente aqueles cuja ideologia é de que “trabalhador que enriquece deve ir para a cadeia, porque foi por roubo” (repito aqui enunciado de um apoiador das manifestações de ontem).
3. Não há negros na Brasil: em todas as imagens em primeiro plano da GloboNews e depois da Globo no Fantástico, não aparecem negros (em geral precisamente aqueles que por razões históricas de exclusão estão entre os mais mal pagos). Só vi uma mulher negra num flash de primeiro plano, e esta na Av. Paulista. Na Bahia, se a população mostrada que estava nas ruas representa o povo baiano, então não há raça negra na Bahia! Como não posso atribuir a ausência de negros nas imagens a um racismo dos repórteres ou dos câmaras-men, o que seria uma leviandade, devo concluir que o povão mesmo não foi às ruas.
4. Os políticos expulsos da Paulista: O governador Geraldo Alkmin e o candidato derrotado nas últimas eleições para a presidência foram vaiados e expulsos pelos manifestantes… E isso que o governador determinou a abertura das catracas, num desvio de dinheiro público a favor de uma manifestação que teve entre seus conclamadores precisamente o seu partido (mas isso os procuradores não acharão que é corrupção, como não acharam que o aeroporto de Cláudio em terreno particular com acesso privativo a familiares do tio de alguém). Isto é um recado também à oposição parlamentar, oportunista e escrachadamente anti brasileira (lembram-se, FHC quando presidente somente sorria quando estava ao lado do Sena em Paris, onde tem um apartamento comprado com o dinheiro do salário de professor da USP, além daquele nos EEUU).
5. A resposta à manifestação: quando imaginamos que os interesses contrários se apresentarão pacificamente nas manifestações de rua, contrapondo quantidades de uma e outra manifestação, esquecemos por completo o contexto mais amplo em que se dá este jogo de interesses de classe. Precisamente porque sempre excluídos, os de mais baixa renda – que hoje sairam da miséria absoluta a que os reduziram precisamente as elites que apoiaram e compareceram à manifestação de ontem – por sua baixa escolaridade e por sua exclusão histórica são aqueles que, bombardeados pelos meios mediáticos, menos confiam em sua própria força. Descobriram muito recentemente que têm o poder de votar em candidatos livres do mando dos seus patrões.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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