Este encontro[1] com que Lilian, Norma e Maria do Rosário marcam, no interior do 19º. COLE, os trinta anos do livro “O Texto na Sala de Aula”, lançando inclusive um conjunto de textos num volume em que esse livro é tratado como “um clássico do ensino de língua portuguesa”, é uma deferência acadêmica, mas também amorosa, tanto das organizadoras quando da direção da Associação de Leitura do Brasil. Sei que inúmeras outras pessoas se associaram à Lilian, à Norma e à Maria do Rosário.
Antes de tudo, portanto, meu muito obrigado pela importância que atribuem às perspectivas que constituem o livro e que inspiraram também toda minha vida acadêmica e política.
Em segundo lugar, é preciso frisar: O Texto na Sala de Aula não é um livro de um autor, mas de muitos autores! Coube-me organizá-lo, colocando num mesmo espaço vozes que ecoaram em outros lugares. Fazê-las falarem individualmente, mas também coletivamente. Fazer dialogarem e se complementarem aspectos apontados ora por um ora por outro autor. Assim, é preciso ter presente que a permanência deste livro deve-se à seriedade de todos aqueles que assinam os textos que o compõem.
Não fujo à responsabilidade: sei que os textos que tocam diretamente a sala de aula e sua organização no processo de ensino de língua materna são assinados por mim. Mas eles significam no conjunto das demais vozes, que dão à proposta de ensino fundamentos linguísticos e também políticos, dispensando os textos por mim assinados de uma paráfrase desnecessária.
Em terceiro lugar, é preciso também salientar que o fato de o livro ainda estar vivo se deve a seus leitores, aos inúmeros professores de português e aos inúmeros professores formadores de professores que o manuseiam e que lhe dão sentidos, atualizam-no e vão além dele, dando corpo e sangue às palavras e ideias defendidas desde os inícios dos anos 1980. Com estes distantes e muitas vezes desconhecidos leitores, mas companheiros de diálogo, é preciso compartilhar o sucesso de uma permanência tão longa de um livro composto despretensiosamente como material para um curso de formação continuada de professores no Oeste do Paraná.
Por fim, antes ainda de começar a revolver os sedimentos de um passado, é preciso dizer, nos tempos presentes, nos tempos que correm, que este não seria um livro de valor, diante dos critérios da suposta “seriedade contemporânea” da CAPES: composto por um conjunto de textos ensaísticos, sem representarem “relatórios de pesquisa”, sem revisão da bibliografia pertinente, publicado como coletânea, numa editora desconhecida e sem conselho editorial, sem financiamento público, este seria um livro sem valor! Um LNC (um livro não classificado).
No entanto, seus textos fundam-se em ideias e ideais, corajosamente avançam na reflexão e queriam, então, apontar caminhos. Mais do que dialogarem com o mundo acadêmico de então, os textos dialogam com professores. Se efetivamente se tornou um “clássico”, seria bastante interessante revisar as categorias com que hoje se avalia o que se produz e para quem se produz no mundo acadêmico.
Nota
Texto lido durante a sessão de comemoração dos 30 anos de edição do livro O texto na sala de aula (J.W.Geraldi (org), S. Paulo : Ática, 1ª. Edição: 1984, Assoeste) do 19º. COLE, de lançamento do livro “O texto na sala de aula. Um clássico sobre o ensino de língua portuguesa”, Lilian Lopes Martin Silva, Norma Sandra Almeida Ferreira e Maria do Rosário Longo Mortatti (orgs). Campinas : Auotres Associados, 2014.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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