A propósito de nosso futuro breve

Compatilho texto da Profa. Dra. Ana Elisa Spaolonzi Queiroz Assis a propósito de uma manifestação estudantil do Chile. E compartilho com ela a preocupação com o futuro do ensino superior público no Brasil. A pressa com que o governo do golpe está destruindo conquistas sociais já estabilizadas chegará ao ensino superior pago muito brevemente. Eis o texto da colega:

 

Ontem fui dar uma aula no Programa de Pós de Direito de Família, também falando sobre a pesquisa de campo no Direito…correu tudo bem e tranquilo….saio da aula, em torno de 20:15, vou pra avenida pegar um taxi, entro no carro e, de repente, os estudantes tomam conta da rua e iniciam suas palavras de ordem. A luta deles é por uma educação pública, vez que o “público” superior aqui no Chile, é pago (aproximadamente 1.500 dólares a mensalidade do curso de Direito); vale dizer, não tem o financiamento do Estado, conforme é garantido aos brasileiros pela CF/88, quando determina a aplicação de, no mínimo, 18% pela União e 25% pelos Estados e Municípios, ação, iniciada com a Emenda Calmon em 1982, e não só mantida, como ampliada, na constituição vigente (fator que ganhou uma PEC em andamento desde o início desta semana para que seja revogado). Ademais, aqui, em todo Chile, apenas 50% dos que ingressam, terminam os cursos superiores….Bom, 15 minutos de manifestação, chegam os carabineiros (polícia), vestidos como tropa de choque…Não posso dizer que estava confortável bem no meio da manifestação estudantil, – é outro país, a lógica também é diferente – mas também não estava com medo…aliás, o desconforto esta se dispersando quando comecei a notar que, aqueles que reclamavam, recebiam, dos estudantes, uma resposta rimada, dizendo que a luta era também por eles, trabalhadores, que queriam chegar em suas casas; pelos seus filhos estudantes e pelo Chile…Mas quando a polícia chegou, eu senti medo. A maior correria…sem conversa, sem diálogo. A imagem, a presença dos carabineiros, foi impositiva, assustadora, dispersora…Nosso país já tem visto muito disso nos últimos meses, fico pensando se o que presenciei ontem, será nosso futuro… Um amanhã brasileiro sem universidade pública, gratuita. Com o maior retrocesso educacional, viveremos nas ruas, apanhando pelo direito de crescer. Fiquei feliz pelos chilenos, por sua luta…fiquei triste por nós, por nossa assustadora e muito possível perda. Neste contexto faço um apelo aos colegas professores da Unicamp/ Faculdade de Educação – Unicamp S.O.S. Universidade Pública/FE/UNICAMP e aos Estudantes da FE/ Associação de Pós-Graduand*s da Faculdade de Educação – UNICAMP e da Unicamp, bem como de outras instituições de ensino: Fiquemos firmes em nossa greve. Fiquemos firmes com nossos ideiais. Fiquemos firmes por nossas Universidades. Fiquemos firmes pela educação pública, gratuita, laica e de qualidade para todos!

Tentei algumas fotos, mas não ficaram muito boas, de qualquer forma, compartilho!

Profa. Dra. Ana Elisa Spaolonzi Queiroz Assis

Faculdade de Educação – UNICAMP

Departamento de Políticas, Administração e Sistemas Educacionais (DEPASE)

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.