Mias uma vez o escritor português nascido na Gafanha de Nazaré nos leva para Moçambique, país em que viveu por mais de 30 anos e ao qual, pela literatura que dele conheço, está intimamente ligado. Seu ambiente é a África, e nela, Moçambique. Os contos que compõem E as raiva passa por cima, fica engrossar um silêncio tem o mesmo ‘topos’, ainda que em seus dois conjuntos remetam a tempos e lugares distintos da vida de seus narradores: África e Portugal.
Neste romance há um só narrador onisciente, que nos conta uma história como se estivesse falando. E como bom narrador, entremeia o enredo com reflexões sobre os acontecimentos em que estão envolvidos seus personagens. São dois os personagens principais:
Nuno Sabino, branco nascido em Moçambique. Jornalista (de uma cidade do interior, não em Maputo) que defendeu sempre a independência do país, que sonhou com a justiça e com o convívio das diferentes culturas num espaço de soberania e liberdade;
Comandante Damião, na verdade o ex-padre Gaspar Mouzinho Chivale, negro, guerrilheiro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), idealista e libertário.
Do ponto de vista cronológico, o enredo remete a quatro períodos distintos da história: 1. a guerra da independência; 2. o primeiro governo da Frelimo (Presidente Samora Machel); 3. a ‘paz enfurecida’ da guerra civil, comandada pela Renamo (Resistência Nacional Moçambicana); 4. o processo de negociação de paz conduzida pelo governo de Joaquim Chissano, sucessor de Samora.
A narrativa se inicia com o espanto do narrador e sua tentativa de compreender a razão de Nuno Sabino ter buscado a morte em alto mar. Desde já este é apresentado como um branco que tinha amizade com os pretos, que queria a independência, que não deixava de sonhar com a liberdade para todos. Encontrar a compreensão das razões de Nuno Sabino será o desenvolvimento da história, e vamos encontrar a personagem em meio à luta pela independência, que já durava anos. Nuno Sabino viaja pelo país, muito frequentemente ausente de casa. Eis a razão para sua mulher, Dona Jorogina, abandoná-lo. Mais tarde ela voltará para Portugal com seu filho Miquelito.
Por seu turno, Nuno decide por uma ausência ainda maior: quer entrevistar o Comandante Damião, no meio da floresta. Será aí, no campo de batalha, que ambos se conhecerão e estabelecerão uma amizade que perdurará ao longo de toda a narrativa. Quem patrocina o encontro é um amigo comum: Zé Pedro, um civil que apoiava a Frelimo, estabelecendo elos entre os guerrilheiros e a cidade.
Deste encontro dos dois heróis, extraio da conversa uma passagem de seu diálogo:
[do Comandante Damião] … Quer saber uma coisa? … Por propensão natural minha, não gosto da guerra… Sou de lua recolhida no que respeita às grandezas do poder… e as armas de fogo são como um relâmpago que cega todos asqueles que as apontam ao seu semelhante. Elas dão-nos um incerto poder, mas sempre me deixam duvidando da minha sensatez. Daí é que penso que a guerra é o que mais mostra o pouco que valem os homens – o fio de sua vida e o seu egoísmo, o seu coçar para dentro, como o macaco.
A guerra da independência unia todas as forças moçambicanas, incluindo descendentes de portugueses. Com a Revolução dos Cravos em Portugal, rapidamente se encerra a chamada “guerra colonial” e Moçambique torna-se independente. Samora assume o governo, e se inicia o processo de implantação do regime socialista, com apoio soviético. E novas atrocidades, em nome do “marxismo leninismo” são praticadas, com uma plutocracia. Serão inúmeros os episódios contados. Foi neste tempo que apareceu o Comandante Damião na casa de Nuno Sabino e lhe disse:
– O Comandante Damião vai morrer amanhã, para eu poder ressuscitar. A propósito, o meu nome verdadeiro é Gaspar. E com esse meu nome que eu vou renascer: Gaspar Mouzinho Chivale. E quero ver se consigo renascer sem ódio de ninguém, com uma vida completamente nova pela frente, mas sem ser senhor de certeza nem de verdade nenhuma. Renascer… como quem sobe dos infernos e vê a luz do sol pela primeira vez. Mas por enquanto o meu verdadeiro nome é só para você conhecer … e mais ninguém. Para saber que tem um amigo chamado Gaspar Mouzinho Chivale – só isso.
Das prisões realizadas pela Frelimo, escapam alguns dos antigos guerrilheiros que discordavam dos rumos dados ao país. E formam a Renamo, que retoma a guerra nos campos e florestas, ajudados primeiro pela então Rodésia e pela África do Sul, sem que o governo de Samora tomasse providências. Com a independência da Rodésia, que passa a se chamar Zimbabwe, e com os acordos com a Tanzânia, Zâmbia e Botswana, pensava Samora que a guerra civil iria acabar. Não acabou, como se sabe, e durou mais de quinze anos.
Inúmeros serão os episódios que serão narrados de uma vida cotidiana em que era preciso sobreviver em meio ao fogo cruzado de dois inimigos: a implantação a ferro e fogo do socialismo e a guerra levada a efeito pela Renamo nos interiores do país, deixado de lado porque somente nas cidades viviam os “proletários”…
Sobreveio a grande seca – e uma barriga com fome não tem lei – recrudesce a guerra civil. Quis o Comandante Damião fazer frente à Renamo: conversou com o Presidente Samora que não lhe autorizou um ataque de guerrilha aos adversários do regime. E assim cada vez mais a Renamo avançava no território, praticando torturas, queimando machambas (pequenas lavouras), roubando e estuprando as mulheres das pequenas aldeias. Enquanto isso, o governo fazia sua pregação:
Ah! Mas com aquilo do marxismo-leninismo o governo e o Presidente Samora fizeram a mais maior confusão. Por causa que o povo não conhecia mais o que era o verdadeiro de ser. Vinha uma pessoa, fosse o governador da província ou fosse mesmo o Presidente Samora, propriamente, fazia banja e falava, falava, falava, permanecido no seu discursar. E perguntava: “Vocês sabem o que é o socialismo?” Toda a gente ficava-se calado – em motivos que ninguém sabia nada daquele assunto. E ele teimosava, muito chateadíssimo, com a voz de zanga: “Sabem ou não sabem?” Xi! Assim sem ninguém de primeiro estar em acordo, só em causa do medo todos e todos falavam igual resposta: “Sabemos!”. Mas aquilo eram as enganadoras palavras. Então – o povo quando que está a falar falsamente uma coisa, como passarinho pequeno mal-acordado na sua vida e nas ignorâncias do canto, está a conhecer direito o pio que à-toa assopra no seu bico? Não pode! Por causa que o pintoinho quando que começa o seu fino piar não pode, xi!, não aguenta cantar como galo. Mesmo quando que ouve o seu pai cantar as madrugas ele nunca que vai conseguir de cantar igual sem crescer-se primeiro.
Começa aí a grande decepção do Comandante Damião e do jornalista Nuno Sabino. Afinal, não fora para isso que lutaram na guerra da independência. Em função da ideologia, todos passavam a reacionários e crenças e costumes tinham que desaparecer:
… Se uma qualquer pessoa tem desejo de falar só a sua língua e praticar sem nenhum temor a religião da suas velhas famílias antespassdas, ou só guardar o costume das suas tradições por querer desacostumar de acietra os sofrimentos do tempo do mando dos brancos, e mesmo sem sonhar de conseguir nenhuma vingança com ninguém – isso é ser criminal e reacionário?
Um dos redatores do jornal que Nuno Sabino vinha dirigindo desde a independência é demitido por ter feito crítica aos desacertos do governo. Nuno toma para si as dores: demite-se do jornal e agora, todos os dias inventa a coragem de novas formas de sobrevivência. Em sua casa vive também o Comandante Damião. Como a Renamo avançava cada vez mais, cometendo inúmeras atrocidades, o comandante decide que irá até o quartel-general do atual dirigente, já autodeclarado Presidente, o generalíssimo Dhlakama. O Comandante Damião some nos matos, decidido a fazer justiça matando o chefe dos matsangas (os guerrilheiros da Renamo receberam este nome derivado do nome de seu primeiro presidente, André Matsangaíza). Nuno fica sem notícias dele e vai levando a vida, agora num novo romance com Lili, que fora salva dos campos de reeducação por influência de seu amigo comandante, e depois fora trabalhar no jornal que ele dirigia.
Depois de mais ou menos 11 anos da independência, Samora faleceu em 1986 e foi substituído por Chissano, que não enfrentou a Renamo, mas iniciou as negociações de paz, conduzidas por Roma.
Como Lili fica muito doente e resolve voltar para Portugal, Nuno Sabino fica solitário, mas recebe surpreso a visita de seu filho Miquelito, já homem feito. Veio passar as férias com o pai, para conhecê-lo e se conseguisse, convencê-lo a voltar para Portugal. Não consegue e quando retorna, deixa novamente Nuno solitário. Este resolve, então, procurar seu amigo, o Comandante Damião, e para passar pelo cerco de sua segurança, alega que quer entrevistar Dhlakama, porque com o avanço das negociações de paz, ele se tornaria o futuro presidente de Moçambique.
Consegue chegar ao acampamento. E lá ouve a voz de seu amigo, falando em Latim, repetindo sempre as mesmas frases – memórias de seu tempo de Pe. Gaspar. Ele fora encontrado pelos matsangas completamente louco e trazido para o acampamento. Dhlakma poupou sua vida, pois reconheceu nele o velho companheiro da luta pela independência.
Assim, descobre Nuno que já nem seu amigo “existia” no corpo magro, barbudo e cabeludo, que frente as crianças ensinava “Gloria in excelsis Deo!…. Firmum in vita nihil…” e as crianças em coro repetiam “Glorinselsideu… Firminvitanilo!…”.
Retorna Nuno mais triste do que foi: embarca numa canoa de pescador e perde-se no meio do oceano.
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Esta narrativa é acompanhada por inúmeras reflexões filosóficas, políticas, sociais, independência, autodeterminação, relação entre o indivíduo e a sociedade, multiculturalismo moçambicano, etc. Esta uma das razões por que este livro não pode ser lido de um fôlego só: o enredo ficcional serve ao autor para colocar na voz de seu narrador um conjunto extenso e complexo de informações, de reflexões e de decepções com a independência dos países africanos.
Mas há também, para aqueles que gostam da linguagem, paradas obrigatórias. O autor domina a linguagem, conhece a fundo os modos de falar moçambicanos, enriquece a língua portuguesa tanto em seu léxico quanto em sua sintaxe. O convívio com a linguagem de uma obra de arte somente pode ser realizado pelo leitor, num contato direto com a obra. Impossível chegar a qualquer ‘êxtase estético’ pela voz de um comentário: é preciso ir à obra (seja ela da natureza que for). Assim, apenas para dar água na boca, eis algumas passagens:
… e em trabalhos de fogo começou de despejar balas no ar – feito fosse o esfrio de um enxame de muitas abelhas em ameaço de doida ligeireza para picaçar o mundo todo inteiro.
… desdormiu-se, completo, quando que sentiu o afogo de ouvir a manhãzinha também se acordando, maravilhã, auroreal, xi!, a luz se ressurgindo-se das trevas do mundo – tempo de viver! Diversagem de passarinhos piavam seguidamente os seus milpios, madrugantes, entodados uns nos outros feito como que era musiquinha caprichada-bonita de boa paz e assossego.
… a noite sempre é o desamadrugras e o anoitecer.
… Não dizem que aos poucos e pouco o escuro da noite se clareia é amanhecendo?
… mas é falsamente que a gente aprende as alegrias do viver, por causa que ninguém aguenta de ficar sempre a mesma pessoa quando que está no meio da tristeza.
… Consigo falava sozinho, meditabundante.
… todo bicho, enquanto vivo, raiva silêncios quando que perde a sua liberdade.
… Ele queria se demitir do viver e por em causa disso tinha ido sembora à procura de uma morte qualquer? Feito a correnteza de um rio que parece conhecer que sempre vai dar ao mar para deixar de ser, e nunca que pára para evitar-se do que está adiante no seu caminho?
… na vida da gente o vento assopra em remoinhos, e tudo fica em escuridões quando que ele alevanta suas poeiras.
… A vida da gente nunca que ninguém pode adivinhar, antescipado, como que ela vai ser no seu termo real. […] … nossa vida sempre podem mais a dor e a alegria do que essas novidades dia-diárias que fazem a doidagem do viver.
… Segundo o que, no seguinte amanhecer, escutou que não se ouvia nem um riso de passarinhos nem o corioquê-quê dos galos – só vozes de gente desadormecida em dormência de um silêncio aquase por completo.
… E nunca que se sabe qual que é o poder das palavras que cada um solta na sua boca – os azares da vida.
… O outro, pela mansa, como desbulhando camisa de maçaroca de milho, para depois, numa brama de ordens, mandar forte castigo nele, prisionar definitivo em malvadeza de tratamentos de corpo – quem sabe até matar sem maiores artiofícios?
Lendo estas passagens, quem não lembra de Guimarães Rosa, de Mia Couto e de Manoel de Barros?
Referência. Ascêncio de Freitas. A paz enfurecida. Lisboa : Editorial Caminho, 2003.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.
Pronto! Fui fisgada p/ ler Ascêncio de Freitas, pois é preciso ir à obra e esta me desassossegou, valeu Wanderley!