“A panela de pressão já destampou”

Geddel Vieira Lima, o coordenador político do governo Temer, diz que já destampou a panela da pressão por cargos e benefícios exigidos pelo Senado. Então está já tudo resolvido. Até Romário ganhou uma diretoria de Furnas. Teria ele alguma pretensão além daquela de conseguir um cargo para um amigo? Pelo salário? Pelo poder de mando? Simplesmente para mostrar que tem influência? Sejamos todos ingênuos: é isso mesmo, apenas mostrar que tem influência e consegue cargos para amigos. É o mesmo  que buscavam os senadores ditos “indecisos”. E todos se aproximam de Michel Temer sem temor algum: sabem que serão atendidos em tudo. Nenhum está de olho nos custos do próximo rodeio de eleições! E foram atendidos, afinal a panela de pressão já destampou…

O preço do impeachment será pago religiosamente e conscienciosamente por Michel Temer, por Geddel Vieira Lima, por Romero Jucá. Foi para isso que se autorizou o déficit nos orçamentos de 2016 e de 2017. O confiável  Meirelles negocia com o chamado mercado e lhe dará benesses para que continue contentinho, sem o tal ajuste fiscal cuja falta era o escândalo de poucos meses atrás. Memória curta tem o mercado! Memória mais curta ainda têm os comentaristas econômicos da grande mídia que clamavam ontem pelo ajuste, hoje calam diante da calamidade orçamentária que deve cobrir os custos do impeachment.

Ficarei curioso acompanhando o futuro de alguns senadores. Certamente Cristóvão Buarque não vai se recandidatar – sabe que seus votos provêm das hostes que abandona descaradamente em troca de alguma embaixada no futuro. Penso que irá para Paris. O Chanceler da Chevron, que acaba de criar inúmeros cargos a serem preenchidos por pessoal de fora da carreira diplomática, não terá pejo algum em indicá-lo. Afinal, Itamar Franco depois da presidência virou embaixador em Portugal… Modesto como ele só!

O impeachment vai passar. Ninguém duvida. A efetividade será dada a Michel Temer. E teremos nos próximos anos um governo refém de uma maioria conquistada por afetividade. É um jogo entre efetividade e afetividade. Michel Temer é muito afetuoso.  Diriam, tem jogo de cintura. Quem não tem jogo de cintura que não se estabeleça. Governar não é orientar-se por princípios, é “ter jogo de cintura” para agradar a gregos e a troianos sempre com a mesma caneta e com os mesmos efeitos.

Fico com peninha, muita pena mesmo, dos neoliberais de carteirinha do PSDB e do PPS, agregado pelo PSB: como são votos de favas contadas porque desde sempre estão dentro do golpe, não serão agraciados pela afetividade de Temer, ainda que lhe garantam efetividade.  Mas eles sabem perder as pequenas oportunidades em nome das grandes oportunidades que virão: Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal são peixes maiores e serão vendidos com “grandes ágios” noticiados pela imprensa que não questionará, como não questionou no passado, a avaliação de um preço vil por que foi e será posto na xepa da feira o patrimônio nacional. E destas ações que virão seus afetos, como já vieram no passado. Afinal, até hoje nenhum prócer apontado no livro de Amaury Ribeiro Júnior, Privataria Tucana, desmentiu o que ali se denuncia ou processou o autor. E nem qualquer Dallagnol divinamente imbuído de ira salvadora tentou investigar as denúncias feitas. Afinal, foram denúncias feitas sem delação premiada conseguida depois de alguns meses de prisão preventiva. Então são denúncias sem valor jurídico estas expostas em livro.

A pressão das vaias nas Olimpíadas e nas ruas não chega a fazer ferver a vergonha aos senadores. Votarão como os deputados federais: pelo Brasil, pela tia, pela esposa  (nenhum pela amante). Afinal, Cristóvão Buarque já disse: perderei amigos. Mas que são amigos perto das benesses do poder?

Dilma voltará para Porto Alegre, para a família, para a filha e neto. Não será esquecida, mas não fará nenhum esforço para ser lembrada. Esteve na presidência sem querê-la. Foi apadrinhada, retirada da manga do colete. Nenhum outro líder com projeção nacional emergiu nestes 13 anos de governo petista! O PT já falecido só tem uma ficha para jogar em 2018. Não vai poder jogá-la porque Sérgio Moro se interporá.

E obviamente aquele processo que tem o PSDB como requerente e Gilmar, Mentes como relator no STE, ficará devidamente engavetado porque nem este prestador de serviços precisará por a cara à amostra desmembrando o processo de pedido de cassação da chapa Dilma/Temer. Seria um tanto vexaminoso desmembrar um e outro e garantir que a verba para um era de propina e que para outro da mesma chapa e do mesmo caixa não era propina! Nem Gilmar, Mentes se arriscaria. Melhor engavetar o processo até a perda de seu sentido… como ele já fez no passado por longos um ano e meio. Agora será por dois anos e meses! Que importa? Importa que Rodrigo Maia, aquele que se elegeu presidente da Câmara com apoio do PT, já lançou a candidatura à reeleição do afetuoso Michel Temer. E tudo voltará a seus eixos, afastado o perigo vermelho.  Não temos nada a temer. Temer ficará.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.