A escrita e a língua escrita: uma distinção necessária?
.Tomemos os seguintes pontos de partida
- O desenvolvimento da oralidade teria sido concomitante com o desenvolvimento da escrita? As inscrições rupestres e a fala teriam a mesma data de nascimento? É posssível (não é esta, parece, a tese do filme Guerra do Fogo, onde a fala se projeta já como exercício do poder, sem que qualquer registro rupestre apareça no decorrer do filme).Sua concomitância ou não, no entanto, não é fundamental para se compreender o processo histórico de construção social da escrita, dado que as inscrições rupestres são desenhos que significam (que falam) ao leitor, e não palavras (que o leitor lê para construir significação)
- Historicamente, foi necessário debruçar-se para escutar a fala e somente sua escuta permitiu a construção dos sistemas de representação escrita. Nos dois caminhos históricos que permanecem até hoje entre nós: a escuta do som para representar segmentos de um contínuo (escritas cuneiformes, mas também as escritas egípcias, por exemplo) ou a “escuta” dos sentidos para representá-los em segmentos de palavras, agrupamento de palavras ou mesmo frases (as escritas através de ideogramas, particularmente no mundo oriental). O entrecruzamento destes dois caminhos é provável e tem sido recuperado por trabalhos de muitos pesquisadores, resumidos com maestria por Marc-Alain Ouaknin (Les mystères de l´alphabet, Editions Assouline, 1997). Nestes estudos aproximam-se, por exemplo, as letras A aos chifres do touro e a letra B ao desenho da casa: um mero quadrado, que recebe uma abertura e mais tarde uma representação simétrica entre o interior e o exterior da casa, até chegar ao nosso B contemporâneo.
- O desenvolvimento da “afinação do ouvido” perante a fala, abandonada a aproximação entre letras e ideogramas (ou inscrições rupestres) permitiu chegarmos até mesmo a um “alfabeto fonético”, cujos traços gráficos são absolutamente arbitrários. Em verdade, a inspiração na “casa” para o desenho de B continua uma inspiração arbitrária. De modo que nada obriga representar o som (a) pelos desenhos conhecidos como letra /a cursiva, de inprensa, maíuscula cursiva, maiúscula de imprensa A, maiúscula quadrada, ou até mesmo o chamado “a” maiúsculo pedagógico da minha alfabetização … Talvez se possa falar que hoje podemos “transcrever a fala”… Mas conhecer esta “escrita”, seus símbolos, seus desenhos, é conhecer a língua escrita?
Um primeirto exemplo
“A bondosa ajuda do mestre e o orgulho, juntos, levaram-me a enfrentar com zelo as minhas tarefas, tanto que após algumas semanas conseguia ler bastante corretamente não apenas aquilo que escreviam para mim na tabuinha encerada, mas também o livro de latim que me deram. Depois recebi um livrinho alemão, que me custou muito sacrifício para ler mas, em troca, deu-me uma grande alegria. De fato, quando lia alguma coisa, conseguia entendê-la, o que não acontecia com o latim; tanto que no início ficava maravilhado porque era possível ler e, ao mesmo tempo, entender o que se tinha lido.” (Lembranças da Escola, de Walafried Strabo, do segundo decênio do século IX, apud. Manacorda, História da Educação: da antiguidade aos nossos dias. Cortez e Autores Associados, 1989)
Um segundo exemplo:
Vovô é o macado de boneca.
A boneca menina:
– Vovô, menina a boneca
O macaco vovô a boneca
Menina dá boneca a vovô
(aluno de 1ª. Série, outubro de 1989, escola do município de São Paulo, apud. Geraldi, J. W. Portos de Passagem, 1991)
2. O desenvolvimento da técnica da escrita: Gutenberg revitalizado
Foi o desenvolvimento do alfabeto (artefato e não tecnologia) quepermitiu chegarmos à prensa, mas não à imprensa… O tipógrafo não é o jornalista. Um tipógrafo pode somente conhecer os tipos e manuseá-los em função do modelo que tem em frente (deve dominar relações do tipo – letra cursiva/ letra de imprensa e também noções de “corpo da letra”, mas seguramente não “lê” o que escreve…). Dos tipos chegamos à linotipo, da linotipo ao teclado da máquina de escrever, do teclado da máquina de escrever chegamos ao teclado do computador! Quem “tecla” nos símbolos, aleatoriamente, disponíveis no teclado, computa?
Decretou-se nos finais dos anos 60 e nos anos 70 do século XX o fim da “Era Gutemberg”: a escrita desapareceria em benefício de uma nova oralidade e da imagem: rádio, telefone, TV pareciam anunciar este fim. McLuhan e muitos comunicólogos anteviram a “aldeia global” como uma aldeia sem escrita! Ao contrário, a sequência de desenvolvimento tecnológico, chegando hoje às novas TICs, todas estão alicerçadas precisamente no teclado, na escrita já conhecida e tecnicamente dominada para reprodução contínua desde os fins do século XV! Senão vejamos: o fax (transmite qualquer coisa desenhada ou escrita, a escrita não ficou de fora na descoberta do fax…) e toda a informática dependem do manuseio da escrita. Mas será “inclusão digital” ser apenas capaz de acessar um site? Tocar numa tecla? Ou a inclusão digital implica a possibilidade de deixar rastros, escrever, opinar desde os velhos “chats”, o anadonado Orkut, até as redes sociais da “facebooklândia”?
E aqui reencontramos uma distinção necessária novamente: mexer no teclado ou no mouse e olhar para o “écran” não é dominar as novas técnicas hoje disponíveis! É ser apenas consumidor, e não usuário da máquina e da rede da internet (ver distinção entre consumo e uso em Michel de Certeau)
3. As restrições de acesso: a língua escrita e o poder
Assim como a prensa não é a imprensa, a escrita não é a língua escrita! O domínio desta vai muito além do domínio daquela. A cidade das letras é uma cidade do poder. Se o modelo topográfico/geográfico da cidade obedece à estética da ordem barroca, permanece na cidade a hierarquia gótica de um poder central do qual tudo emana. Na época, este poder central se escreveu como Deus e sua representação terrestre na Igreja e sua hierarquia, de que a realeza (o sangue azul) é uma contraface civil (ainda são os papas, arcebispos e bispos que coroam os reis) que deve obedecer o modelo do ordenamento social (a alguns cabe mandar, a outros obedecer. Salazer dizia: “Se soubésses o quanto é difícil mandar, gostarias de obedecer sempre”… O ditadores sempre manusearam o discurso… e a língua escrita). Hoje, escreve-se este poder central como “mercado” (palavra com que escondemos as vontades de lucro, mesquinhez e poder daqueles que comandam o mundo). Sempre uma hierarquia…
Nesta cidade, o domínio da língua escrita é uma gerra de poder… E qualquer variação na escrita é anunciada, denunciada para que se despreze aquele que opina de forma distinta para não enervar o “mercado”…
Todos os mecanismos de acesso à língua escrita são marcados por relações de poder: a escola, os meios de comunicação social, o acesso a livros. Assim, ter uma população praticamente analfabeta (ou com “letramento” baixo não é um destino, é um projeto político).
Estabelecida uma distinção nos dois campos – aquele da tradição e aquele da contemporaneidade – podemos chegar a uma primeira conclusão: dominar a escrita (no sentido técnico) e dominar o mouse e teclados (no sentido de seu manuseio) não é saber a língua escrita nem é estar incluído no mundo digital que tornou acessível a todos a publicização de suas opiniões (o golpe da contemporaneidade nas elites que tornou possível o direito efetivo da liberdade de expressão também àqueles que não são os proprietários dos meios de comunicação). Houve um deslocamento: da “liberdade de expressão” reivindicada pela elite intelectual a serviço do poder para seu uso exclusivo, para o “direito à expressão”, um novo direito humano!
4. Os desafios deste quadro
No mundo em que a presença de novos instrumentos de produção e comunicação está exigindo uma reorganização da sociedade, dois caminhos têm sido propostos: 1) aquele do aprofundamento da cisão entre os homens pela diferença gritante de acesso aos bens materiais e culturais, aprofundando o ritmo de produção para criar uma sociedade de consumo, tomando este como o apanágio do ser civilizado, agora um consumidor de “mercadorias feitas sob medida” (!), tendo como regulador das relações sociais o mercado (financeiro, particularmente); 2) um segundo caminho é o da reflexão para construção de outro ordenamento, no mesmo tempo histórico que teve o liberalismo e neoliberalismo para se construirem como tais (400 anos!), sem ter ainda definido um modelo mas sabendo que o modelo que vivemos é inadequado tanto para a felicidade dos indivíduos quanto para a sobrevivência do planeta.
Vivendo dentro do modelo de mercado, e pensando ao mesmo tempo em outro modelo, oscilamos entre (1) e (2). Temos (1) e queremos (2). Quer dizer, nem todos querem (2), particularmente aqueles que fazem a pergunta exigindo uma resposta pronta: que outro modelo? Como se o modelo que defendem tenha sido primeiro elaborado mentalmente e depois implementado socialmente… Com o mesmo direito ao processo histórico, aqueles que apostam em (2) (e sobrevivem em (1)) sabem já o que não querem, primeiro passo para construir um mundo novo, global por certo (que globalização não é novidade, novidade é a globalização da miséria…). Neste quadro amplo, que desafios são aqueles que teremos de enfrentar?
Certamente é preciso PERDER AS CERTEZAS prometidas pela modernidade: o conhecimento de tudo, como uma e única verdade. Somente não perderam as certezas, continuam sem dúvidas aqueles que defendem o modelo existente. Perder as certezas em seu sentido amplo e entre elas podemos elencar: as certezas epistêmicas (crise do paradigma moderno); as certezas políticas (crise do sistema do socialismo real como contraponto ao capitalismo moderno); as certezas da produção de bens (imaginar a infinidade de recursos num planeta finito); as certezas das permanências (estabilidade no emprego, eternidade das instituições, incluídas entre elas as empresariais); as certezas nas relações pessoais (nem o amor e nem o casamento são eternos: o amor tem a eternidade do tempo que dura).
Perdidas as certezas, particularizemos agora os desafios ao interior da escola:
- Da socialização dos conhecimentos para a reflexão: A escola como um todo deverá se redefinir neste século. Ela já não é o lugar da socialização dos conhecimentos e dos sujeitos que buscam estes conhecimentos;
- De instituição de ensino para instituição de aprendizagem: A internet, a Wikipédia, os sites de informações: tudo está acessível, de modo que não cabe mais à escola “ensinar” os saberes disponíveis e desconhecidos. Talvez a escola, por definição uma instituição de ensino, tenha que fazer o caminho de se auto-redefinir como uma instituição de aprendizagem onde professores e alunos estão aprendendo, e não onde um ensina e o outro aprende
- De relações hierárquicas para relações democráticas: Esta particularidade nova centrada na aprendizagem demanda construir novas relações no interior da sala de aula, que deixam de ser hierárquicas e sempre em benefício do professor para exigirem relações democráticas, com as quais estamos absolutamente desacostumados…
- Da uniformidade para a pluralidade das formas: Chegando um pouco mais perto de nosso tema: a língua escrita não é mais uma só, não tem mais um só modelo (o literário no passado, o jornalístico a partir dos fins do século passado). Há línguas escritas e estas línguas se interpenetram. Por que razões não podemos escrever em vez de “que” simplesmente “q”? KKKK para risadas? De quantas formas se pode escrever a palavra FIXO: fiquisso, fiquiço, fikso, fikço, ficso, ficço, e fixo? Como exaltar a pluralidade de pensamentos, de culturas, de modos de vida e ao mesmo tempo impor uma só forma para se escrever uma palavra ou um discurso? Quem disse que cada gênero ocorre em uma e só uma esfera da comunicação? Bakhtin não foi…
- Do conhecimento estabelecido para a dúvida e a construção de conhecimentos através de práticas: nos anos 1980 se iniciou uma mudança de perspectiva que propunha práticas linguajeiras em lugar do ensino de um objeto (seja este um conhecimento gramatical, seja este um conhecimento a propósito dos gêneros discursivos); os anos neoliberais retornaram aos objtos (agora redefinidos como gêneros discursivos e seus espaços sociais de emprego – como se os espaços sociais fossem delimitados com fronteiras fixas e rígidas). O conhecimento construído através de práticas não tem limites e nunca acaba (processo da criança aprendendo a língua, o jogo entre o reconhecimento e a significação), mas não segue o princípio moderno da aprendizagem do mesmo ao mesmo tempo por todos, para que estejam estes todos preparados para as provas regionais, nacionais e internacionais. Lembro aqui Diane Ravitch. O grande sistema americano de educação e sua recusa agora aos testes…
Por fim, diante da distinção escrita/língua escrita, com que iniciamos esta exposição, que é um sujeito alfabetizado? Aquele que domina a escrita ou aquele que domina a língua escrita? Pelo conceito de “múltiplos letramentos” e pela defesa do ensino “técnico” da escrita, parece que se pretende aquartelar a alfabetização no domínio restrito da técnica, com o letramento dando conta dos “usos sociais” da escrita com sentido, ou seja, da “língua escrita” em nossos termos! Quer dizer, preconiza-se que a etapa do “O macaco e vovô” ou da leitura do latim sem sentido do então jovem monge Walafried Strabo é necessária e salutar para a formação de sujeitos letrados… Não leio assim o lema “Alfabetizar letrando e letrar alfabetizando”: a concomitância de ambos significa apostar no domínio da língua escrita e não numa etapa fictícia de domínio da escrita para depois chegar à língua! O exercício histórico e necessário de escuta que permitiu a construção do alfabeto partiu da língua para sua escrita e não do alfabeto para a língua… Assim também a criança no processo de aquisição da língua escrita não pode se iniciar na codificação e decoficação de letras, segmentos mínimos e sem sentido (exceto aquele teoricamente construído pelas oposições estruturalistas), porque perde a língua em benefício de uma representação escrita, mas deve agir no campo a língua escrita e dentro dela encontrar os “mistérios” da técnica, em si mesma não significativa.
Reivindico, pois, o direito à alfabetização como processo iniciático ao mundo da língua escrita, onde se proferem discursos de luta democrática pelo poder político (recuperando o seu sentido grego de convívio igual na polis), que não elimina mas convive com a diferença. Conviver com a diferença implica em não se apropriar dos recursos materiais para beneficiar apenas aqueles que momentaneamente estejam no poder, porque isso significa construir o poder econômico e não o poder político! Reivindico, pois, uma retomada revitalizada e re-significada da humanidade que temos todos e cada um em particular. Não esqueçamos
“… em realidade as formas linguísticas não têm qualquer capacidade semântica intrínseca: elas são instrumentos, expedientes, mais ou menos ingênuos, sem vida e sem valor fora das mãos dos homens, das comunidades históricas que as utilizam… o erro está na afirmação e na crença de que as palavras e as frases significam qualquer coisa: só os homens, ao contrário, significam, por meio de frase e palavras.”(Túlio de Mauro, Une introduction à la sémantique, Payot, 1969)
Reivindico, em síntese, nosso direito a nos significarmos, neste turbilhão de um mundo de significados já dados, já prontos, já pausterizados. Tudo para que possamos reenxergar nosso mundo como o poeta:
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Seu olho exagera o azul.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando um rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os
ocasos.
(Manoel de Barros, O Livro das Ignorãças, p. 75)
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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