A mim, não interessa se Lula é ou não proprietário do sítio de Atibaia ou do triplex de Guarujá. Neste sentido, penso sempre nos exemplos históricos: Jucelino foi acusado de enriquecimento ilícito durante seu governo,, em que construiu Brasília. Ao morrer, não tinha praticamente nada. D. Sara passou a viver da pensão! Getúlio Vargas foi acusado de ter enriquecido ilicitamente (e foi ditador e depois presidente eleito). Ao morrer, tinha o que já tinha antes da revolução de 1930. Ou seja, a questão não é se Lula enriqueceu ou não. Pode até não ter enriquecido. E não é porque sendo operário enriquecido que deveria ser preso.
Minha questão é outra. Para ter governabilidade, Lula se abraçou a indignos políticos (Paulo Maluf, Severino Cavalcanti, para citar nomes-símbolo da corrupção política). Trouxe para seu partido outros tantos (como Delcídio do Amaral, que abandonou o PSDB para se tornar petista). Para que esta governabilidade? Para fazern caridade com o bolsa-família, com as quotas que elevaram em 230% o número de negros nas Universidades brasileiras, para elevar o número de universitários brasileiras na faixa de 18-25 anos, que em 1998 era o mais baixo da América Latina? Para isso, quis governabilidade?
Ora, caridosos até a elite pode ser. O que se esperava de uma governo petista, além da ética na condução da coisa pública, era um governo que elevasse a cidadania brasileira, incluindo nela os sempre dela afastados. E cidadania é acesso à saúde, a postos de saúde; à educação, a escolas de qualidade; à participação política e à consciência de que se vive numa comunidade que vai além de uma multidão de consumidores. Nenhuma destas coisas, que remetem ao crescimento da cidadania, foram realizadas pelos governos petistas.
Mas a governabilidade foi adquirida no sentido textual do temo: comprada. Pelo mensalão, pelos cargos públicos, pelo dinheiro desviado da Petrobrás. Com isso, os governos petistas enterraram definitivamente qualquer mudança nas estruturas de uma sociedade arcaica como a nossa, em que 1% dos endinheirados comanda o poder econômico (só para dar um exemplo, pense-se no cartel do cimento, fundamental para construir habitações), o poder político (pense-se na compra dos apoios através das doações legais ou ilegais para as campanhas), o poder mediático (pense-se no poder da Rede Globo e de sua verdade). Esta aquisição valeu a pena? Historicamente só valeu para um projeto de poder, e não para um projeto de sociedade.
Agora, veio a fatura. E estamos empaturrados de escândalos. Em outro momento já disse que aqueles que apostaram já não se surpreendem com a lama toda. O que mais resulta da governabilidade comprada é a impossibilidade de ultrapassarmos a estrutura social que herdamos desde a colônia e das relações da casa grande com a senzala. Perdemos o bonde da história para chegarmos ao menos a uma sociedade mais democrática, ao estilo da Argentina (não sonhava mais alto do que isso!).
Lula, Dirceu, Palocci, Dilma et caterva nos tiraram o sonho. Duas gerações perdidas. E muitas daquelas que virão nos próximos 200 anos, a não ser que uma hecatombe da natureza destrua o modo capitalista de estarmos no mundo. Não cansei de sonhar. Mas cansei de apostar.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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