Alguém acredita que a Reforma da Previdência não será aprovada pelo Congresso Nacional, nas duas casas? Ninguém, suponho. O governo Temer, com seu braço forte Henrique Meirelles, não vem de trator, vem de esteira mesmo, achatando qualquer veleidade dos chamados “parlamentares” que deveriam, por dever de ofício, parlamentar fazendo a ponte entre um executivo forte e a população que dizem representar.
Os passos foram bem ensaiados. Primeiro, fez-se uma grande propaganda da “déficit” da Previdência, incluindo de roldão como se fora da previdência toda a seguridade social introduzida entre nós há tão pouco tempo pela Constituição de 1988. A inclusão dos trabalhadores rurais, o Benefício de Prestação Continuada que permite a idosos e a deficientes uma sobrevida com um salário mínimo mensal, tudo parte da seguridade social, foi posto no mesmo pacote. E assim, calculados os custos da seguridade e das aposentadorias, a arrecadação não cobre todos os benefícios concedidos! Obviamente. Nem deveria. O governo faz como a maioria dos empresários brasileiros: o aumento do patrimônio é parte das despesas operacionais e deve ser repassado ao consumidor! Assim, a seguridade social é repassada para o contribuindo do INSS!
Para fechar as contas, nenhuma palavra sobre o não recolhimento das contribuições recolhidas dos trabalhadores mas não transferidas para o governo (estão na ordem de quase 500 milhões!). Sabem aqueles que sonegam e também praticam apropriação indébita, que num futuro qualquer haverá “perdão” e eles poderão recolher com prazos esticados – durante o governo FHC estes prazos chegaram a 100 anos! – como fazem os maus cidadãos que não pagam o IPTU de suas cidades (mas continuam a usufruir da coleta de lixo, das ruas, dos parques) porque cinco anos depois terão novos prazos e até mesmo descontos, pois as prefeituras estão sempre numa pindaíba de fazer dó e fazem qualquer negócio para uma arrecadaçãozinha mostrando ao distinto público pagante que não vale a pena ser honesto.
Pois teremos uma imprevidência na dita reforma. O que mais choca na proposta temerosa é o assalto aos benefícios de idosos e deficientes, que recebem estes benefícios mesmo que jamais tenham contribuído para a Previdência. E recebem com justiça, porque suas pobrezas extremas são um escândalo social – muito maior do que a Lava Jato – que os 0,1% da população brasileira, sua classe dominante, perpetua há séculos no país.
Passada a reforma da previdência, dentro de alguns anos surgirá uma Princesa Izabel para promulgar a lei do sexagenário!!! Naqueles tempos, foi porque os escravos que chegavam a esta idade se tornavam inúteis para o trabalho duro a que eram submetidos por toda a vida. A princesa do futuro constatará que as empresas do presente, as de agora, também despacham para as sarjetas das cidades os trabalhadores que, por idade, se tornam pouco produtivos!
E despacham também trabalhadores produtivos, de nível superior, que exercem cargos de gerentes e supervisores, que amanhecem incompetentes, tendo ido dormir competentes. Isso está acontecendo nas empresas, de todos os tipos. Conheço supervisores da Boticário que amanheceram incompetentes. As empresas demitem quando pretendem “sangue novo” para sugarem. O mesmo fazem os empresários da educação: professores experientes, com doutorado, são demitidos depois de 9 ou 10 anos de serviço, para serem substituídos por “sangue novo” que se submetem a receberem por aula dada o valor de um quilo de bananas. Afinal, eles precisam “entrar” no mercado de trabalho…
Este é um governo que produz a imprevidência. Alardeia que a economia está dando sinais de recuperação e que para avançar precisa de maior exploração! Tudo é gasto… antigamente se dizia que “educação era investimento”. A gente estrilou!!! Agora, defender o mesmo lema se tornou “revolucionário” diante da imprevidência que se instala a torto e a direito no país a ser entregue pelo menor preço a quem o quiser! Eles prestarão este serviço aos ricos, depois comerão as migalhas de suas mesas, porque um Temer, um Henrique Meirelles, um Rodrigo Maia são serventes, não são os donos do país. Enriquecidos, não deixam de ser classe média.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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