A França está em guerra

 
O atentado na bela Nice, no dia em que a população francesa comemora a queda da Bastilha, uma data nacional, deixa a todos nós consternados. As ações de guerra seguem também para o estado Islâmico o mesmo critério criado pelo governo Bush e seguido à risca pelo governo Obama: o mundo é um campo de guerra. 
 
Em resposta ao terrorismo de 11 de setembro, o terrorismo começou a funcionar em todos os sentidos. Também o mundo árabe assumiu que o mundo é um campo de guerra. 
 
Ao jogar um caminhão contra uma multidão, os jihadistas respondem em desespero a guerra que começam a perder nos campos distantes da Europa, no Oriente Médio. E tornam a doutrina Bush algo que abraçam com violência, não maior do que as mortes causadas pelos drones que atacam todo o mundo árabe em busca dos terroristas listados nas reuniões de terças-feiras no porão da Casa Branca, com presença do presidente Obama.
 
Estamos num mundo em guerra, guerras localizadas, nem por isso menos violentas. Trata-se de guerras localizadas – uma espécie de teoria de focos das guerrilhas libertárias do passado. Uma guerra mundial que não tem esse nome. Os interesses econômicos, desta vez, se sobrepõem à ideologia nazista da segunda guerra mundial. As petroleiras, as sete irmãs, jamais são lembradas a cada ataque desta batalha. No entanto, por trás de cada ataque chamado de terrorista – tão terrorista quanto os ataques de França, Inglaterra e Estados Unidos e Rússia no Oriente médio – estão os interesses pelo petróleo que levaram à elaboração da festejada Primavera Árabe. Festejada pela imprensa comprometida com o sistema, obviamente.
 
Faltam-nos líderes mundiais que não rezem pela cartilha dos interesses econômicos. Estão indisponíveis ideais de sociedade menos excludente. O fim das ideologias tão cantado por pós-modernos ou por decretadores do fim da história está se mostrando uma masturbaçao intelectual. O fim só valeu para ideologias idealistas, no bom sentido desta expressão: fim das ideologias socialistas e comunistas. A ideologia edonista do mercado está bem viva e está produzindo os ataques como este na bela Nice. O desespero de um modo de compreender a vida que o Ocidente se esforça em fazer desaparecer ainda causará ao mundo muitos sobressaltos e muitas mortes inocentes. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.