A falta de ética de alguns médicos produz mais do que espanto: tristeza. Absoluta tristeza. Não que acredite ser o médico, por princípio, um ser superior – como muitos deles se julgam e como a transformação do paciente em objeto assim que cai na malha hospitalar confirmam – mas porque sempre imaginei que nesta profissão, até por estarem sempre muito próximos da dor alheia, não haveria médicos tão escrotos a ponto de indicarem, como fez um médico que atende em São Roque, rompimento em procedimento para causar imediata morte de D. Maria Letícia, acrescentando “Daí já abre pupila” (= morreu). “E o capeta abraça ela”. Esta afirmação advém da posição que assumiu este exemplar da imbecilidade humana: a capacidade de fazer julgamentos divinos e condenações às profundas do inferno.
Para mim, não consigo sequer continuar a escrever trazendo os outros nefastos gestos praticados por fetos gerados imperfeitos que chegaram a médicos que selecionam quem merece viver. Ai de quem cair nas mãos destes excrementos!
Se verdade a informação que circula nas redes sociais de que o Sírio Libanês demitiu a tal Dra. Gabriela, a que primeiro mostrou sua falta de ética, a direção do hospital merece aplausos. Resta saber agora se o corporativismo abafará os processos abertos pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo, apostando no famoso esquecimento do que se passou…
E o pior é que estes todos não passam de uma classe média bem paga e hoje patrimonial, sem no entanto ter mudado da classe! Pensam que são donos do capital… coitados! Meros servidores bem pagos, fieis como cães a seus patrões. Pensam estar prestando um serviço a sua ideologia, mostrando sua subserviência sem ética! Engano: agindo como agem, explicitam à plena luz o que se esconde com tanto cuidado, a exploração do outro e a execração pública de quem enxerga o outro como companheiro com que compartilhamos todos a vida.
Não desejo a estes médicos que caiam nas mãos de seus colegas… depois de terem tido uma pequena desavença tão comum entre amigos! Poderão sofrer “no procedimento” efeitos inesperados… Afinal, é isso que defendem para quem se atreve a desdizer suas verdades.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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