A espantosa forma de raciocínio do juiz Sérgio Moro

Há muitas notícias falsas circulando pelas redes sociais. Sempre se construiram boatos, tanto no campo político quanto na vida privada. A diferença que surge com os novos meios de comunicação, é que um boato se espalha mais rapidamente do que no passado. Ele não depende mais das comadres ou dos fofoqueiros dos tempos de antanho. Agora circulam instantaneamente. 

Penso, no entanto, que a citação que farei não é boato, mas transcrição de entrevista que deu Sérgio Moro, que após palestra para empresários em Curitiba, aceitou responder a algumas perguntas. A imprensa obviamente repercutiu principalmente sua afirmação de que suas decisões não têm qualquer motivação partidária. 

Mas a passagem a seguir é que me interessa:

Declarou-se aborrecido com uma notícia falsa veiculada sobre seu pai. Disseram que ele seria um dos fundadores do PSDB na cidade paranaense de Maringá. Moro acrescentou que suas sentenças não têm motivações partidárias. “Meu pai já é falecido, era professor de geografia, talvez a pessoa mais honesta que eu conheci. Tenho zero ligação com partidos […]. O juízo trabalha com fatos. Interesses partidários não são o caso dentro da minha profissão”. (disponível em 

http://www.fabiocampana.com.br/2016/03/moro-diz-que-pais-nao-mudara-se-ficar-esperando-pelos-politicos-e-governos/)

Aqui aparece meu espanto com a argumentação e o raciocínio de Sérgio Moro. Como a notícia de que seu pai estava entre os fundadores do PSDB de Maringá, ele apresenta o argumento de que “meu pai já é falecido”. Deste argumento não se deduz que não possa ter sido fundador do PSDB de sua cidade. Mas a argumentação segue: “ele era professor de geografia”. Há alguma incompatibilidade entre ser professor de geografia e ter participação político-partidária? Só professor de sociologia, nosso Farol de Alexandria e Imperador de Higenópolis, pode ter participação partidária e estar entre os fundadores de um partido? Deste fato, de ser professor de geografia, não se deduz que o pai do juiz Sérgio Moro não foi um dos fundadores do PSDB de Maringá. Não estou dizendo que foi: estou dizendo que os dois primeiros argumentos do juiz Sérgio Moro são insuficientes para desmentir o que ele chamou de falsa notícia.

Mas mais espantoso é o argumento seguinte. Ele afirma que seu pais é “talvez a pessoa mais honeste que eu conheci”. Do fato de que o pai de Sérgio Moro é honesto deduz-se que ele não esteve entre os fundadores do PSDB de Maringá? A acompanhar este tipo de argumento, teríamos que deduzir que para ser fundador de um diretório do PSDB é preciso não estar entre os honestos?

Se efetivamente a notícia de que o pai de Sérgio Moro não é um dos fundadores do PSDB de Maringá, o juiz Sérgio Moro, que trabalha com fato, deveria apresentar fatos que comprovem a falsidade da notícia. Mas ele trabalha com fatos que nada têm a ver com a falsidade ou verdade da notícia. E seus esclarecimentos somente nos mostram suas formas de raciocínio.

Daí que não é de surpreender que tenha mandado trazer para depor o ex-presidente Lula sob coerção para “segurança” do depoente!!! O ministro do STF Marco Aurélio Mello já agradeceu este tipo de segurança… Aliás, dada a quantidade de policiais e dada a quantidade de metralhadoras utilizadas, realmente a espalhafatosa operação de coerção produziu uma segurança enorme para todos os cidadãos. Afinal, parece que no raciocínio de Sérgio Moro, terror é sinônimo de segurança. Pobre cidadania se um regime policialesco como aquele mostrada na sexta-feira fatídica se impuser entre nós. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.