Pelo que conheço, a geopolítica norte-americana é conduzida segundo alguns eixos essenciais que lhe garantam a permanência no papel de sede do império contemporâneo, ainda que a economia seja globalizada. Entre estes eixos, podemos listar:
- Domínio de territórios com grandes recursos naturais (petróleo, gás, água, ferro etc.). Este eixo explica a presença e intervenção dos EEUU no Oriente Médio. É ingenuidade que sua presença por lá seja simplesmente para defender o parceiro Israel, apesar da força política dos magnatas judeus na sede do império.
- Benefício às empresas norte-americanas, mesmo quando elas já sequer produzem em seu território. A lucratividade que obtém explorando mão de obra barata e produzindo com matérias primas cotadas ao mínimo possível retorna ao país-sede e isto permite o domínio da economia produtiva pelo mundo todo. Por isso seu esforço em liquidar com os BRICS, particularmente com a China que lhe faz concorrência agindo do mesmo modo – produção barata às custas do trabalhador – dentro de seu próprio território.
- Total desregulamentação dos trânsitos financeiros para permitir que o rentismo lucre o máximo possível e impossível sem pagar impostos precisamente nos países que lhes dão estes lucros.
- Guerras localizadas e constantes para manter tanto o funcionamento da indústria bélica quanto o império do medo em todos os países. Desde a doutrina Bush de que o mundo é um campo de batalha, os EEUU não precisam declarar guerra a ninguém. Se desejam, matam. Ponto.
Certamente há outros eixos orientadores de sua geopolítica, mas estes são os essenciais. Às vezes, por interesses políticos momentâneos, podem dar mais relevo a um ou outro eixo, mas jamais esquecerão que tomar para si, controlar os recursos naturais do planeta, é sua meta principal.
Com a eleição de Donald Trump, analisam-se aqui as consequências em sua política externa para o Brasil. É bem verdade que nosso minúsculo e falante chanceler José Serra, que não tem nada de diplomático, no exercício do cargo, sempre incensado pela imprensa que o tem como seu eterno candidato à presidência, ele sim ficou mal para a posição que ocupa. Em plena campanha, falou que a eleição de Trump seria um desastre, um sofrimento e era quase impossível. Perdeu mais uma vez a oportunidade de ficar calado. Parece que ele desconhece por completo o cargo que exerce!
Mas o que me chamou atenção em análises da elite brasileira foi a recorrente afirmação de que para o Brasil nada mudará. Que Trump está muito mais preocupado com as questões internas dos EEUU, a retomada do pleno emprego (coisa que o tucanato brasileiro considera um grande mal porque faz pressão no mercado de trabalho elevando salários, como afirma Mendonça de Barros; ou porque se passa a pensar em distribuição de renda e não em lucro, como pontificou Michel Temer). Para o mundo, a política externa, dizem eles, permanecerá a mesma, com mudanças em relação à Rússia e à China.
É bem verdade, no passado os democratas começavam guerras, os republicanos trabalhavam para encerrá-las. Mas depois da era Bush, não há diferença entre democratas e republicanos. Certamente a crise com a Rússia recrudesceria sob o comando de Hillary Clinton; com Trump vem um balde de água fria… Faltará somente ele combinar isso com a CIA e seus programas de desestabilização de governos pelo mundo.
Diz nossa elite que o Brasil é um país não estratégico para a política norte-americana. Que o país não é um alvo econômico porque não oferece qualquer perigo na concorrência internacional… o discurso segue este padrão típico de nossa elite: a desvalorização do patrimônio e do potencial brasileiro. Como todos sabemos e percebemos diariamente, nossa elite tem vergonha de ser brasileira! Os Armínios, os Rícuperos, os Serras, os Cardosos – todos eles prefeririam outra nacionalidade, francesa ou norte-americana dependendo do estilo de cada um. Aliás, Armínio Fraga é norte-americano, o que não se sabe é se para obter a nacionalidade ele tenha recusado continuar brasileiro.
Pois esta elite não consegue se reciclar. Ela pensa da mesma forma sempre, desde os tempos dos engenhos de açúcar, das plantações de cacau e atualmente das lavouras de soja e milho: somos um país perdidamente atrasado e para sempre atrasado para as vantagens desta mesma elite. Nossa elite ainda não conseguiu engolir que somos da 8ª. economia do mundo; ainda não aceita que temos reservas naturais em minérios que causam cobiça; ainda não incorporou o pré-sal como patrimônio brasileiro. Faz questão de vender até o Aquífero Guarani. Todo recurso natural disponível, desde que descoberto, deve ser entregue porque o país é incapaz de explorar, de enriquecer com o que a natureza lhe premiou… Para a elite brasileira, somos um país incompetente! E eles sonham que não são brasileiros… logo, não estão incluídos entre os incompetentes!
Mas nossa elite não é como Pilatos, que lava as mãos! Ao contrário, tem as mãos sujas e suficientemente fortes para manter a ideologia da incapacidade dos brasileiros, para agir de forma inconfessável toda vez que o país começa a erguer a cabeça em suas relações internacionais. E sobretudo quando uma pequena parte de seus ganhos são diminuídos por políticas de distribuição de renda.
A elite brasileira não quer um país desenvolvido. A elite brasileira considera que não somos estratégicos. A elite brasileira considera que somos incapazes. Para ela, nada mudará sob Trump, porque não representamos caça cobiçada.
Certamente não somos mesmo, porque a elite já está entregando tudo antes mesmo de qualquer ação de caça; porque já começamos a dobrar os joelhos desde o golpe; porque ser eternamente dependente está no DNA da elite, desde que lhe sobre, de sobejo, para além de seus palácios, suas garantidas contas no exterior. E sem preocupações algumas com estes salvadores da pátria bem orientados para destruírem precisamente as empresas que estavam fazendo concorrência com as empresas norte-americanas pelo mundo afora.
Nada mudará com Trump, não porque Trump queira. Não mudará porque já estamos de joelhos com oferendas nas mãos: a falência das grandes empresas providenciadas; o pré-sal à disposição; o Aquífero Guarani entrando na rota da privataria; os poucos bancos ainda estatais (Caixa Econômica e Banco do Brasil) em processo de privatização; e se eles quiserem, como afirmou Michel Temer, até as creches podem ficar em suas mãos. A elite oferece tudo. Por isso tudo fica como está. Nada muda sob Trump.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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