Eis que o Brasil, conseguindo como aliados Paraguai e Argentina, inicia sua diplomacia de fala grossa com vizinhos e países em desenvolvimento ou pobres, para ajoelhar-se diante da geopolítica norte-americana. O diplomático e sutil José Serra veio para isso: uma inflexão na política externa. Em lugar de multilaralismo que caracterizou o passado recente e que deu ao Brasil um papel de relevo na comunidade internacional, agora vigorarão a fala grossa e os joelhos.
Com a Venezuela, que deveria assumir o comando do Mercosul – que aliás esta diplomacia fará de tudo para explodir – usa-se a fala grossa: impedimento para assumir a presidência. Depois de articulada a rejeição, acha-se o crime: o país não cumpriu todas as normas do bloco.
O Uruguai democrático reclama: nenhum dos membros do bloco cumpriu todas as normas. O próprio Uruguai deve 52; o Brasil 50 e tantas; o mesmo da Argentina, segundo o chanceler uruguaio Rodolfo Nin Novoa. Mesmo descumpridor, o Brasil lidera o veto à Venezuela, no primeiro gesto “diplomático” do nosso chanceler incensado pela imprensa.
Aliás, aquela moça da massa cheirosa, Elaine Cantenhêde, a casta não só em virtudes peessedebistas, mas também porque no fundo gostaria de que o país adotasse um regime de castas, entrou o ouro. Querendo incensar a “nova diplomacia”, elogia o novo embaixador brasileiro nos EEUU, Sérgio Amaral, já confirmado pelo Senado e já em movimentação prévia para assumir o posto. Que ele seja mais feliz do que aquele que deixa o cargo, pois este com suas explicações do impeachment só fez aumentarem as assinaturas da manifestação dos parlamentares norte-americanos pedindo atenção do Departamento de Estado para o que está acontecendo (ou já aconteceu?) no Brasil.
Pois Sérgio Amaral afirma que há 50 iniciativas na pauta da relação Brasil-EEUU. Algumas andam de vagar, outras nem andaram, outras podem seguir com mais rapidez. Como o dito cujo embaixador ainda não assumiu seu cargo, então as iniciativas existentes e a que Sérgio Amaral quer dar mais rapidez na relação bilateral, nesta tal diplomacia pragmática que significa alinhamento aos EEUU, já pré-existiam a entrada de José Serra no ministério! Nada criou de novo! O que muda mesmo é a tática da fala grossa e da fala mansa. Ao querer elogiar, a CASTAnhêde entrega o ouro. Revela que a novidade do incensado José Serra é apenas de tom. Quando antes o Brasil tentava falar de igual para igual com todos os países e todos os blocos, agora o Brasil falará grosso com os países pobres, tentará boicotar os BRICS, porque isso é de interesse do império e implodirá muito rapidamente o Mercosul.
E então voltaremos ao nosso futuro, que é o passado, em que a diplomacia da ditadura militar defendia que o Brasil não pode querer ser mais do que é, um grande satélite do irmão do norte que “só nos oferece oportunidades” sem lucrar absolutamente nada. Relações fraternas de um irmão mais velho com seu irmão mais novo (a república norte-americana é bem anterior à república brasileira, como é bem anterior sua abolição da escravatura, e também a sua concretização de uma reforma agrária, coisa que no Brasil somente mereceu até agora breves ensaios).
Enfim, o passado chegou. É o nosso futuro.
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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