O homem público que foi, nosso Farol de Alexandria, sociólogo de Higienópolis, Príncipe proclamado e aclamado por serviços prestados na dilapidação do patrimônio público, FHC perdeu uma rica oportunidade de ficar quieto. Em seu último artigo na imprensa reconhece que a presidente Dilma não cometeu crime algum para que o impeachment ocorresse, mas surpreendentemente defende a tese de que tendo ela chamado de golpe o impeachment sem crime de responsabilidade, cometeu o crime suficiente para ser impedida!
E mais: alega sua magnitude que ao nomear Lula como ministro, independente de suas intenções – de restabelecer uma governabilidade no país, por exemplo – caiu na dúvida de estar obstaculizando a ação da justiça à Sérgio Moro. Outra razão segundo o apagado Farol para o impeachment. Ou seja, para FHC uma dúvida sua é suficiente razão para o impeachment. Acho que a inteligência começou a falhar, quando se esperava que a sabedoria iria começar a achar um lugarzinho no farol apagado.Ele já havia clamado, perorado e implorado pela renúncia. Agora abre o verbo para defender asneiras ao mesmo tempo que, com sua autoridade reconhece não ter Dilma praticado crimes…
Sábio como se tem a si próprio, deve conhecer o enunciado atribuído inadequadamente ao presidente colombiano Ospina, quando da revolta de 09.04.1948 (ver Gabriel Garcia Márquez. Viver para Contar): “Para a democracia colombiana vale mais um presidente morto do que um presidente fujão”. Ora, a renúncia de Dilma, sem ter cometido crime de responsabilidade segundo reconhece o estadista de Higienópolis, seria uma fuga. Melhor um impeachment à revelia da Constituição para a democracia futura, como o foi o suicídio de Getulio Vargas.
A história condenará os golpistas, entre eles FHC. No grande tempo, quando forem revelados os fatos e os documentos, inclusive aqueles tornados secretos para sempre por FHC, a luz se lançará sobre os dias presentes, e na história a ser contada não farão bela figura FHC e seus companheiros Eduardo Cunha, Aécio Neves, José Serra, Michel Temer, Carlos Sampaio e seus subordinados togados Gilmar Mentes e Sérgio Moro, aquele que recomenda ao STF o que deve fazer…
Ah, a história revirará suas tumbas, profanará seus nomes, esclarecerá seus desvios. É triste porque não mais estaremos lá, mas é consolador saber que a história é cruel com os títeres e com os inescrupulosos políticos que no presente se têm como estadistas.
João Wanderley Geraldi
Contributor
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.
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