Desde Getúlio Vargas houve um esforço nacional de industrialização para tirar o país da posição de fornecedor de matéria prima sem qualquer valor agregado. Foram desta época a Fábrica Nacional de Motores (FNM, cujos caminhões povoaram a minha infância!), a Cia. Siderúrgica Nacional e, claro, a maior de todas: a Petrobrás.
Depois, até os militares continuaram esta tentativa de uma nação que produzisse o que precisava e exportasse seus excedentes. A EMBRAER surge então, com capital de investimento público direto e por incentivos fiscais. Ainda lembro que, com técnico em contabilidade, preenchi guias de recolhimentos de aplicações na Embraer, com ganhos de desconto sobre o valor no imposto de renda devido pela empresa em que trabalhava. O capital da Embraer se constituiu inicialmente desta forma dupla: investimento do governo e investimentos menores incluindo pequenas empresas do interior, como era o caso.
Claro que, durante a ditadura, não faltou um lídimo representante dos tempos da casa-grande afirmando que a saída do Brasil era a exportação de grãos. Foi o projeto de Delfim Neto quando diminuído de ministro da Fazenda para Ministro da Agricultura… A casa-grande jamais perdoou estas veleidades de modernização.
Depois vieram os neoliberais e venderam tudo. E não pagaram dívida alguma. Terminaram seu grande período com o pires na mão pedindo por três vezes empréstimos ao FMI. Não são de saudosa memória, mas estão aí de volta no comando…
E depois, depois dos vendilhões da nação, vieram as operações. Inicialmente a operação chamada Lava Jato precisava dar um jato de água bem fria na Petrobrás! A empresa teve o atrevimento de encontrar petróleo no pré-sal. Teve o atrevimento de se tornar a que tem a melhor tecnologia para exploração de petróleo em águas profundas. E ainda por cima, começou a se expandir para além dos limites das águas territoriais. Como disse um verso de Vítor Hugo: ‘era preciso acabar’. Com informações fornecidas pelos interessados, depois da espionagem, surge a República de Curitiba e faz o serviço. Completa-o agora o novo Presidente da Petrobrás, o neoliberal Parente: venderá tudo aos parentes, isto é, aos concorrentes da Petrobrás que financiaram a espionagem e tudo mais.
No caminho da destruição da Petrobrás, a Lava Jato encontrou as empreiteiras. Estas também estavam causando danos ao mercado internacional. Ora vejam só: fazendo obras no Oriente Médio, na África, na América Latina, regiões “nossas” gritaram as multinacionais que tem sede numa nação. E lá se foram as empreiteiras sob os aplausos, corretos, do combate à corrupção. Esta deve sim desaparecer (não vai desaparecer nos países desenvolvidos cujas empreiteiras substituirão as nacionais inclusive cá dentro, pois como disse um ministro temerbroso, não há diferença entre empresa nacional e empresa estrangeira).
A seguir veio o setor de energia nuclear! Onde já se viu o país desenvolver tecnologia própria nesta área? Foi para a cadeia nosso maior inventor!!! Ele se deixou comprar? Ou foram apenas indícios o suficiente para a prisão??? Vindo da República de Curitiba, tudo pode!
E então as vaidades dos delegados da Polícia Federal – a se crer em Nassif – aliadas à mesma campanha de destruição da economia nacional, como cães foram combater a corrupção no mercado de carnes! E fizeram um estardalhaço! Encontraram não só corrupção, mas sobretudo o que se está chamando de “carne podre”… Isso tudo agrada muito aos patrões: o Brasil dominava 7% do mercado internacional de carnes bovina, suína e de aves, particularmente o frango. Toda uma cadeia produtiva que vai se detonada, implodida como consequência. Os frigoríficos da matriz e dos patrões agradecem penhoradamente.
Se fosse verdadeiro tudo o que se diz sobre a carne e sobre os produtos de embutidos, deveria haver uma epidemia nacional de problemas gástricos e intestinais. Uma investigação séria na área deveria ter reunido também estes dados… mas eles não são necessários: para os efeitos midiáticos desejados, o mal pode ser feito com “indícios” como gosta de afirmar nosso Inquisidor Mor, o imberbe Dallagnol. Com indícios, afoitos, os delegados correram para a mídia… e a merda está feita. A repercussão internacional está dada!!! A Coreia do Sul já barrou a compra de frangos. E o setor que agregava valor à produção dançará… Sobrará, inicialmente, para os pequenos produtores de frangos de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Depois, chegará aos grandes proprietários rurais e a suas vacas e touros… Os frigoríficos não vão ter para quem vender, porque ao mesmo tempo há um achatamento na capacidade de compra da população e nestas condições o mercado interno não terá como consumir o que sobrará dos contratos de exportação desfeitos… E olha que os sistemas de saúde do Oriente Médio, da Ásia, da América Latina também não detectaram a epidemia da caganeira…
Há papelão nos embutidos? Em todos? Bom, na minha casa não consumimos mortadela e salsicha desde os anos 1978. Em dezembro daquele ano, ganhamos de presente de Natal, da moça que trabalhava em nossa casa, uma peça enorme de mortadela! Fiquei espantado! “Isso é muito caro!” E tive a resposta: meu pai trabalha no Frigorífico, e ganha todos os fins de ano uma peça dessas, mas ele não deixa a gente comer!!! Ele é um dos que preparam a massa de jornal velho para fazer mortadela… Desde então não consumimos mortadela e salsichas… E este crime deve ser combatido! Mas imaginem só, são empresas privadas… elas que são tão cantadas em prosa e verso pelos áulicos mediáticos brasileiros!!! E eles que não venham dizer que a culpa é do governo que não fiscaliza. Um tal princípio significaria que para cada cidadão, precisa um fiscal…
Por papelão é um crime, obviamente. E deve ser combatido. E se os fiscais do Ministério da Agricultura (dominado há anos pelo PMDB, o mesmo partido da atual ilegítima presidência da República) estavam comendo bola destinando parte para o partido, eles devem ser presos. Mas a associação entre o combate ao crime e a mídia não é inocente! E não se deve somente à fogueira de vaidades de delegados, procuradores e juízes de todas as instâncias.
É um programa claro de destruição de todos os setores modernos do país que estejam fazendo pondo o nariz para fora das divisas da nação! O próximo passo já se iniciou: trata-se de destruir a Embraer, mesmo já privatizada… A Embraer está exportando pequenos aviões (já viajei num Embraer do Cairo a Assuan, no Egito!). É preciso, senhores delegados e procuradores, dar um jeito nisso.
Terminado este serviço, o próximo passo poderia ser uma investida de bom tamanho na produção de grãos: milho e soja! E há suficientes indícios para começar a Operação Granus Maculatus: o uso de agrotóxicos proibidos em outros países… Deve haver corrupção, para justificar a operação, em algum escaninho das licenças concedidas por cá!!! O problema de uma tal operação é que as indústrias que produzem o proibido são da matriz!!! E lutar contra elas jamais farão os senhores delegados e procuradores, obviamente. De modo que a Operação Granus Maculatus é ovo choco. Não nascerá nada!!! Precisamente onde era preciso!!! Mas voltaremos à casa-grade e ao latifúndio justificado economicamente.
Ah! Talvez ainda sobre um setor: o de produção do etanol! Quem sabe?
João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.

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