“Bobokl, bobok, bobok” – estranhas vozes enervadas e desdenhosas ecoam no plenário do supremo, em colóquios revesados nas sessões litúrgicas dos togados, sempre em atitudes e posturas rigorosamente solenes e sagradas. As togas vestidas a rigor;os cabelos cortados e penteados no estilo clássico; os ternos, as camisas, as gravatas dos homens rigorosamente nos modelos tradicionais; os brincos, os colares, as pulseiras, os rostos maquiados, os lábios pintados, os cabelos esticados das mulheres, sempre nos modelos da mais elevada nobreza.
Em linguagem jurisdicional imprecisa, inexata, de interpretações e de sentidos múltiplos e controversos, as excelências de togas leem os argumentos dos seus votos de condenação ou de absolvição dos sentenciados. É a imagem mítica do poder supremo.
Na história, o genial artista e cientista Dostoiéwski usou as palavras e a literatura como armas – argumentos estéticos e científicos – na luta contra os usos e abusos atrozes do poder. Isso, segundo ele, nos tempos em que “o humor e o belo estilo desapareceram e as injúrias substituíram o espírito de delicadeza”. E nos tempos de hoje? Aqui no Brasil? É de arrepiar os cabelos e fritar o cérebro.
Os seus críticos ignorantes e imbecis, Dostoièwski combatia com ironia fina – inventou o diálogo dos mortos – “Bobok”, o mais brilhante conto de Dostoièwski. Muitos e diversos mortos, lá embaixo no subsolo do cemitério conversando sobre os males dos vivos lá de cima.
Certo dia, ele saiu para se distrair e divertir – certamento numa bodega – e acabou indo num enterro, primeiro na casa do velório, depois no cemitério. Quando estava no cemitério, lugar nada atraente e agradável, porque mal cheiroso e triste, começou ouvir vozes quase surdas, como se estivessem saindo de bocas sufocadas por almofadas. Muito assustado, mas curioso, Dostoièwski sentou-se num túmulo de um general da corte e ficou quieto a escutar as vozes. Diversos mortos – uns da alta sociedade, das classes mais nobres e ricas, outros das classes do meio e outros ainda sem classe social nenhuma – conversavam respeitosamente, sem autoritarismo, sem imposturas, sem dar ordens, sem violência, todos falavam e escutavam os outros falar. Uma conversação elevada.
Lá, naquele tempo, os mortos dialogavam. O diálogo na literatura. Obra única. Genial.
Aqui, hoje, os vivos poderosos e autoritários mandam e determinam o que e como deve ser, sem escutar a fala dos outros. Condenam e mandam prender os críticos, os adversários e opositores. Para que estes, os pobres, nunca mais cheguem ao poder da nação. Não precisam sequer cometer crimes para serem condenados. Ser pobres já é o grande e doloso crime.
Ainda outro dia, muito aborrecido da vida, me conectei numa plataforma do Google para me informar dos temas mais elevados que circulam aqui no Brasil e que rondam o planeta terra e esbarrei nas vozes bizarras dos togados. Vozes gravadas sem permissão e proibidas de serem ouvidas.
Uma voz grave, em tom autoritário elevadíssimo, anunciava:
– “Excelência, esta é a nobre e justa sessão da “Vaza Jato” do nosso supremo”.
– “É isso! É a sessão de “Lava Toga” – completou outra voz bem serena.
– Meritíssimo, com perdão da palavra, a minha toga está limpa, passada e não precisa ir para a lavanderia.
– “Ei, meretríssima, a sua toga está de mau cheiro, está cheirando xixi e cocô” – exclamou uma doutora da plateia.
– “O que? Você aí sim é meretríssima. Eu sou meritíssima de verdade, por lei, portanto, de direito. Você é uma meretriz”.
– “Excelência, respeitosamente isso não se fala aqui no supremo, lugar do poder acima de todos, lugar de respeito aos poderosos, lugar de condenação dos fracos e pobres”.
– “Excelência, trocando de assunto, eu tenho uma gravação sigilosa e proibida fora deste supremo. Escutem excelências:
– “Eu me admiro muito e vou me admirar para sempre por ter condenado à prisão um comunista. Assim, impedi que ele voltasse a ser presidente do Brasil. E não sou um tolo por me admirar. Me sinto mais nobre”.
– “Sim. Excelência, mas e aquelas tramas articuladas fora do supremo”?
– “Eu obedeci os poderosos. Tive que cumprir ordens. E que eram a minha vontade também”.
– “Isso contradiz ao mesmo tempo imparcialidade e parcialidade”.
– “Eu sou especialista formado em julgar e condenar inocentes pobres e especialista fino em absolver criminosos ricos”
– “Isso mesmo excelência, a verdade acima de todos”.
– “Prezado colega, quando vossa Excelência condenou o Lula ele…
– “Calma! Eu fui obrigado a condenar o Lula. Por força da lei da alta estratégia.
– “Mas se não há provas do crime?
– “Isso não vem ao caso”.
– “Excelências, o assunto é muito grave. Precisamos de muita lucidez e juízo para tratar. Para tanto vamos todos e todas até a sala ao lado, sala da farmácia biológica. Mas cuidado! Bebam com moderação”.
Assim, a sessão do plenário foi suspensa. As investigações das gravações do subsolo também foram silenciadas.
Professor, pesquisador, escritor
José Kuiava é Doutor em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp (2012). Atualmente é professor efetivo- professor sênior da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Planejamento e Avaliação Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: autobiografias.inventário da produção acadêmica., corporeidade. ética e estética, seriedade, linguagem, literatura e ciências e riso.
Quando a forma para falar do sério é o cômico, estamos prestes ao fim da tragédia em que vítimas são escolhidas a dedo.
TOGA
Por onde se esconde a conveniência
Na mais alta aparência da toga
Um quadrante que abole a dormência
Do pesado sessenta e quatro de complacência
Germina o ovo trivial de uma nova serpente
O que afugenta mais um golpe cordial
Vindouro da mais alta corte afável
É carregada pela curva da displicência
Que susta quarenta por centro de real
Investigação assegura avalanche da sangria
Desconfiada pela Lava afortunada
Que se ajusta por um poder parcial
Por baixo da toga preta É bem maior a sua escuridão
Que faz ranger a nossa constituição
Sem nenhuma serventia As leis não são acasos do destino
Regulamento do capital num poder habitual Seres “honrados” do poder constitucional
Onde a população paga seus formidáveis salários
Pra lavrar leis otárias de um livro ficcional São seres daquela toga preta
Zona moralmente abalada pelos preceitos
Entoando uma espetaculosa moral esdrúxula
Tratam sempre humildes como otários
Com seus duzentos milhões de sol a sol
Que depositam anopluro de seus salários.
Adilson de Apiaim