270 milhões contra 28 milhões: as bolsas públicas

Aforante a sonegação de impostos, que no país é coisa calamitosa e traz como consequência um emaranhado sistema tributário, em que se criam novos impostos para recuperar o que se perde em arrecadação por impostos cobrados dos consumidores mas não recolhidos aos cofres públicos, a bolsa-empresário, benefícios compostos por isenções de impostos, juros subsidiados e construção a fundo perdido de infraestrutura para suas instalações custará ao país, neste ano, o assombroso montante de 270 milhões.

Mas a culpa do deficit público é da bolsa-família, que custará 28 milhões e é distribuída a 5000 vezes mais de pessoas do que a bolsa empresário, que vai para o bolso de poucos brasileiros. E eles reclamam. Empresário quer mesmo é: 1) redução de impostos; 2) redução de salários; 3) infraetrutura para seus negócios; 4) investimento sem risco; 5) no caso de os lucros não serem os previstos, cobertura pública dos lucros não auferidos. O ninguém se lembra mais de quando FHC decretou um imposto sobre nossas contas de luz para compensar os lucros cessantes das distribuidoras privatizadas? Eu não esqueço! No apagão, o governo pediu economia de energia. A população correspondeu. As distribuidoras viram seus lucros minguarem, se tornaram lucros cessantes. Solução: arrecadação de um imposto sobre nossas contas de luz para garantir investimento sem risco: outro tipo de bolsa-empresário.

Uma das coisas que mais ouvimos é que há muito imposto. Bom, todo o imposto cobrado é transferido para o produto produzido: quem paga realmente o imposto é o consumidor final. Ora, a empresa não passa de uma arrecadadora dos impostos que deveria – mas nem sempre faz – transferir o arrecadado em cada produto ao governo. Sonegam: apropriação indébita do recebido.

Mas há outras formas ainda de funcionamento destas bolsas-empresários. Toda a despesa – inclusive de gasolina de seus executivos – vai para a contabilidade como custo da produção ou da comercialização. Também vão para a contabilidade todas as despesas de promoções, publicidade etc. Quem aiinda não recebeu uma mensagem dizendo que teria direito a 100 msn nos próximos 60 minutos? Ou ligações gratuitas nos próximos 15 minutos? Obviamente não dá tempo de você usar tudo o que lhe  ‘dão’ como promoção, mas o custo da promoção vai para a contabilidade. Quanto? O que realmente os consumidores usaram ou um valor arbitrado pelos executivos, criando um caixa 2 no interior da empresa, valor distribuido entre eles próprios?

Já me aconteceu um descuido: ao embarcar num voo, a funcionária do balcão extraiu as duas folhinhas do bilhete: da ida e da volta. Quando fui retornar, descubro que embora o voo fosse aquele, que tinha cópia no bilhete, que constava entre os passageiros, eu não tinha passagem de retorno! Tive que comprar outra. Depois entrei com um pedido na agência. Eles me devolveram o bilhete de retorno porque reconheceram que houve erro no embarque. Mas o que recebi foi um bilhete de passagem de retorno, ou seja, eu teria que voltar àquela cidade para poder usar o que era meu de direito fazendo o retorno!!!! Esta a compensação!!! Mais tarde descobri que todos os voos não usados mas pagos constituíam um ‘fundo’ que financiava viagem dos executivos da empresa… Grande mérito: uma empresa de compromisso social.

Conta-me uma amiga que perdeu a paciência com o discurso anti política porque entre políticos há corruptos (e os há mesmo, como há em outros lugares). Respondeu ao discurso esbravejante que havia corrupção em todas as atividades, e ameaçou começar a listar pessoas bem conhecidas do grupo que sonegavam, uma forma de corrupção e apropriação indébita. A interlocutora fica lívida. Outra entra com o deixa disso…

Diz-me agora a mim um empresário do agronegócio: pobre que enriquece é ladrão, tem que ir para a cadeia. Referia-se a Lula, que em certos meios jurídicos de certa república é chamado de Nine, porque lhe falta um dedo. Pois não é ladrão quem sonega, não é ladrão quem tem juros subsidiados, pois não é ladrão quem não paga contas em bancos públicos porque sempre se arranjará uma leizinha que obrigue negociações, como aquelas patrocinadas pelo governo FHC em que dívidas foram à negociações com prazos de pagamentos de 100 anos (e justo na Previdência Social, cujos aposentados de um salário mínimo são os culpados do deficit público). 

Tudo sob o beneplácito da imprensa investigativa brasileira. Tudo sob o beneplácito do discurso anti Estado. Tudo sob o beneplácito da cegueira da justiça. 

Culpados? Pelos próximos 20 anos serão Lula, Dilma, PT… A primeira e única experiência brasileira, não sem erros terríveis, de um governo que colocou também a pobreza no orçamento público.

 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.